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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

"Nota de Pesar pela Morte do Aluno Eliano Bezerra", por Sandro Ferreira


Assim como aconteceu há cerca de um ano quando o bombeiro Paulo César foi assassinado, muitos estão querendo simplificar a morte cruel do aluno da UFBA Eliano Bezerra, como algo determinado apenas pelas drogas. É incrível como Barreiras tem essa capacidade de jogar tudo pra debaixo do tapete: As centenas de famílias que perderam suas terras pela grilagem, as dezenas de jovens que “desaparecem” em abordagens policiais, as várias famílias que moram embaixo das marquises e que nossa “invisibilidade social” nos impede de ver. Tudo é muito simples por aqui, e todos, inclusive a Universidade, fecham os olhos, e exercitam o esquecimento como forma de viverem “felizes” e em “paz”, nessa cidade “grande e medíocre” que é Barreiras.

Desde ontem, logo após a notícia do desaparecimento, uma pedra de crack já servira de argumento simples pra ignorar a complexidade da existência de uma figura como Eliano, numa cidade como Barreiras. Ele representava muito mais, sabia muito mais... não é à toa que, em cada esquina de Barreiras, ontem tanto se comentava sobre a sua morte.


Hoje já li e ouvi várias vezes frases do tipo “esse povo chato, tudo querem associar a racismo, a homofobia. O problema da nossa sociedade é econômico!”. E o que é o econômico senão um campo onde o cultural, o ideológico e o político transitam?

Precisamos fazer um esforço para entender melhor, cuidadosamente, os melindres, as tramas do “ser humano”. Como o racismo se processa em nossa mente, em nossos atos, de todos nós, que até lutamos pra não sermos racistas, mas que, por resultado da nossa socialização, reproduzimos o tempo todo pensamentos e atos racistas, sem, às vezes, sequer perceber. O mesmo digo sobre a Homofobia: não é porque assistimos Big Brother ou novelas da Globo que aprendemos a conviver com os homossexuais. Só quem é gay sabe o quão difícil é “amar”, sentimento e experiência que todos nós desejamos em sua forma plena. Se uma relação heterossexual, que é normatizada positivamente pela nossa sociedade, já é supercomplexa e difícil de se estabelecer com completude, imagine o quanto é uma relação homoafetiva?

As pessoas precisam entender as formas em que as relações homoafetivas ocorrem. O preconceito faz com que os homossexuais em busca de uma companhia, seja por amor ou apenas sexo, muitas vezes tenham que "comprar" parceiros jovens e viris em troca de presentes, e hoje muito comumente, em troca de drogas. Este parceiro não o ama, muitas vezes sequer tem prazer físico no ato sexual. Assim o ódio se amplia, dada a sensação de quebra da pureza "natural" deste parceiro. A linha entre este ódio mental, esse nojo pessoal, e um ato brutal de violência é muito tênue. Isso é HOMOFOBIA, e é muito comum casos assim em grandes cidades. A droga, a loucura do seu efeito, é só um estopim pra isso. Na sequência, esses criminosos buscam roubar tudo que puderem do parceiro gay, como forma de justificar a verdadeira motivação de um "michê" (como é chamado) em se envolver com um gay: obter algum ganho com isso.

Se a nossa sociedade não considerasse a homossexualidade uma doença, uma coisa inaceitável, os gays não precisariam buscar pessoas assim "na pista". Haveria mais homossexuais e bissexuais assumidos, que se permitiriam tranquilamente ser cortejados por um homem, ter uma relação normal, afetiva, com um gay. O "michê" não é um homossexual, ao menos no sentido próprio do termo,  ele vende seu corpo, e muitas vezes faz isso por uma vida de miséria.


Eliano era um corajoso, não se importava com o que a sociedade (a hipócrita Barreiras) pensava. Certamente esse não foi o primeiro, nem o segundo "monstro" com quem ele se envolveu e que poderia num momento de loucura (causado pela droga, por exemplo) matá-lo brutalmente, exercitando todo o ódio e crueldade que muitos desses "michês" carregam por seus "clientes".

Não vou ignorar os erros que ele cometeu na vida (já ouvi algumas histórias), mas como me disse ontem um colega "ele não era uma pessoal do mal". Sua malandragem era o seu "modo de navegação social", e assim como a Virgem Maria perdoou e acolheu João Grilo em "O Auto da Compadecida", certamente teria feito o mesmo por ele.


Digo, sem nenhum medo daqueles que hoje o execram, que Eliano está fazendo falta e que Barreiras fica mais cinza (e obscura) sem a presença dele.

- por Sandro Ferreira

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"O Circo Chegou... e chegou para ficar", por Paulo Roberto Baqueiro Brandão

No último dia 17 de outubro de 2011, chegou à cidade um circo estranho. Fincou estacas e levantou lona nas imediações da primeira rotatória da BR-242, sentido Salvador-Brasília, no trecho conhecido como Av. ACM, onde, de vez em quando, logo em frente, outros circos e parquinhos mais alegres e multicoloridos também costumam entreter a nada feliz população de Barreiras.

Muitas pessoas curiosas foram ver a trupe, que se chama Circo Casa do Povo. Foi tanta gente que uma turma ficou de fora. Mas até quem entrou sofreu apuros com os apertos e a gritaria incessante dos espectadores, que esperavam a cortina descerrar e o espetáculo começar com tudo o que um circão dos bons costuma oferecer.

O circo era muito estranho. Era monocromático, tocava músicas de uma nota só e os artistas conversavam em uma língua estranha, que só quem fazia parte da comitiva circense era capaz de entender. As atrações, verdadeiras misturas de “vade-retro” com “cruz-credo”, estavam mais para bizarras que para divertidas.

Tinha uns quantos leões, nada dóceis, que não saltavam as argolas flamejantes. Ao contrário, faziam a plateia saltar a cada rugido ameaçador, de um inconfundível sotaque pernambucano. Alguns macaquinhos, estranhamente bem posicionados na arquibancada, assoviavam, gritavam e macaqueavam a cada momento de excitação extrema, quando se anunciava a vinda de um circo ainda maior, que logo vai chegar para ficar.

Havia animadoras. Apenas duas, é verdade. Mas causaram retumbante alvoroço quando desceram glamorosamente as escadas de onde saíam as atrações principais, mandando beijinhos para a plateia no melhor estilo das saudosas chacretes.

Com elas também apareceram os mágicos. Ah, os mágicos!! Aqueles senhores sempre bem vestidos que fazem as coisas sumirem diante dos nossos olhos, sejam pombos, moedas, ou mesmo um grande patrimônio público. Sempre quis saber para onde vai tudo isso que os ilusionistas teimam em fazer desaparecer...

A plateia, ensandecida, gritava e gritava. Uns pediam o dinheiro de volta, pois o circo ia se tornando cada vez mais estranho, com as suas atrações bizarras. Outros, que, junto com os macaquinhos, faziam muito barulho, desejavam mais e mais, exigindo um desempenho de gala dos artistas.

Eis que, em um momento de clímax, as luzes se apagaram e uma das animadoras, sem quê nem pra quê, virou a Monga, a Mulher-Macaco. Ao menos foi isso que pareceu quando as suas atitudes ganharam um tom de ferocidade, berrando e apontando os dedos para todos os lados, como quem está prestes a atacar os incautos espectadores. Encenação, claro. Mas não dá para negar que mete um medo danado!

Antes que alguém pergunte pelos palhaços, é melhor contar logo. Esses estavam espalhados por toda a cidade. Tristes e desiludidos, pois lhes negaram o picadeiro, mais pareciam pierrôs traídos por uma nada elegante colombina que fez promessas melodiosas aos pobres coitados.

Artista de mil habilidades, a colombina, que é animadora, Monga, mas também cantora, entoou uma balada que inebriou os ouvidos dos palhaços, um verdadeiro canto da sereia que agora faz os barcos naufragarem na curva de um rio que já foi grande, exatamente onde vão erguer o novo circo.

Obs.: Qualquer ligação com uma certa audiência pública que ocorreu na mesma data é mera coincidência.

por Paulo Baqueiro (Professor da UFBA)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

“Do Crescimento Econômico ao Desenvolvimento Econômico e Humano: um caminho a ser construído!”, por Márcia De Liberal

Entre os dias 15 a 20 de agosto, aconteceu no ICADS/UFBA o Fórum sobre Desenvolvimento Humano e Econômico em Barreiras organizado pelo PET Humanidades – Programa de Educação Tutorial, durante o qual foram abordados temas de extrema relevância para o futuro da nossa região, tais como: Crescimento Econômico, Políticas Públicas em Saúde, Políticas Públicas em Educação, Políticas Públicas em Habitação, Políticas Públicas em Saneamento Básico e Desenvolvimento Humano, discutidos entre professores especialistas nas áreas e gestores públicos da cidade.

Na palestra intitulada O Crescimento Econômico em Barreiras, buscou-se esclarecer a diferença existente entre os conceitos de Crescimento Econômico e Desenvolvimento Econômico, mostrando que o primeiro é mais restrito, pois está centrado no aumento quantitativo da capacidade produtiva e, principalmente, na renda. Já o segundo conceito, baseado na transformação qualitativa da estrutura da economia, abrange todas as formas possíveis de melhorias na qualidade de vida advindas do crescimento da economia, incluindo a diminuição na taxa de analfabetismo, o aumento na expectativa de vida, as melhorias na qualidade da educação e da saúde, o aumento da oferta de emprego, o saneamento, a preservação do meio ambiente, entre outras.

Dessa forma, o objetivo central era expor que uma realidade social pode ser modificada com a colaboração ativa de todos os integrantes da sociedade envolvidos no processo. Sendo assim, é necessário compreender que o desenvolvimento econômico é sempre uma consequência do crescimento econômico, relação esta que nunca se dá de forma contrária. Portanto, sabemos se um país teve ou não Crescimento Econômico observando a taxa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto: é o valor monetário total de todos os bens e serviços finais produzidos na economia de um país durante o período de um ano); e, se teve ou não Desenvolvimento Econômico observando os diferentes indicadores do Desenvolvimento Humano.

Analisando esta visão da conjuntura macroeconômica sobre o potencial de Barreiras, sem excluir todos os impasses dos conflitos ambientais gerados pelo agronegócio, é importante ressaltar que um dos pontos fortes da região está justamente neste segmento da economia e os seus possíveis desdobramentos. Isso inclui a implantação de um parque industrial, implica no aumento da oferta de empregos, agrega valor aos produtos e aos serviços, além de promover a chegada de novas universidades que devem funcionar como centros de conhecimento teórico e prático, tendo em vista a elaboração de propostas voltadas para tratar das questões locais e que apresentem condições viáveis de transformar a vida da cidade e dos seus habitantes. Para isso acontecer, é preciso entender que só é possível ultrapassar e vencer a fronteira da pobreza com oportunidades capazes de gerar melhorias em todos os aspectos da vida social.

Vale lembrar ainda que, apesar do reconhecimento dos malefícios de um trabalho executado sem planejamento e sem equilíbrio no setor primário da economia, em especial a desigualdade no acesso aos alimentos por parte da população em nível mundial e o desmatamento de florestas que deveriam ser preservadas para manter o ecossistema, o agronegócio praticado sob a orientação de profissionais qualificados e ambientalistas pode ajudar o mundo a ser um lugar onde todos possuam chances de viver com dignidade e comprometimento com as futuras gerações. O célebre poeta inglês, William Blake, que deixou para a posteridade a frase “Onde o homem não está, a natureza é estéril”, leva-nos a refletir melhor sobre a importância da consciência humana no trabalho sustentável com a terra.

Para finalizar, são importantes os seguintes questionamentos: Almejamos ver a cidade de Barreiras inserida em um programa de crescimento econômico e sustentável permanente com conquistas no campo sócio-econômico? E, por que não toda a região oeste da Bahia? Se assim for, não basta apenas pensar em realizações do ponto de vista individual ou meramente mercadológicas. Somos responsáveis pela promoção de uma visão ampliada de sociedade, uma vez que, cada cidadão pode dar a sua contribuição inserindo-a em um contexto mais abrangente capaz de traduzir a ideia e o sentido de coletividade.

Este caminho almejado pode ser construído!

por Márcia Mello Costa De Liberal
Professora Adjunto do Curso de Administração
ICADS/UFBA

sexta-feira, 22 de julho de 2011

"Democracia Omissa", por Márcio Carvalho

Alexis de Tocqueville foi um grande pensador político francês do Século XIX. Em seu livro Democracia na América, repleto de análises que continuam pertinentes e atuais, o autor externa a preocupação a respeito da ausência do povo nos negócios do governo. O maior receio futuro de Tocqueville é a omissão dos cidadãos em favor de um poder tutelar – e o fato de que os representantes deste poder sejam eleitos não altera coisa nenhuma...

Das cidades nas quais morei, Barreiras é aquela na qual mais se fala sobre política nas ruas; entretanto, posso afirmar que é aquela na qual o povo é menos politizado. Paradoxo? Não. Fala-se muito sobre política, mas se age pouco em termos políticos concretos.

Quando uma rua é asfaltada (raro!) foi "a" prefeita. "Jaques Wagner" não apóia a região oeste. O asfalto da rodovia é responsabilidade de "Dilma". Nunca se fala nas instituições, apenas nas pessoas. E a personalização das questões retira delas seu conteúdo político, uma vez que passa a se tratar de questões pessoais; desta maneira, inviabiliza-se a ação política coletiva, visando influenciar o processo de tomada de decisões destas instâncias, para que levem em consideração os interesses de importantes setores da sociedade civil.

Isto significa que deveríamos ter como horizonte uma democracia totalmente direta, em que todas as decisões são tomadas em assembléia? Poderíamos imaginar que, desta forma, os interesses majoritários da comunidade seriam atendidos. Minha resposta é: nem sempre. Vou me apoiar em outro filósofo para prosseguir o argumento, Bertrand Russell (no livro Poder: Uma nova análise social): "A Democracia como método de governo está sujeita a algumas limitações que são essenciais... [as quais] surgem principalmente de duas fontes: algumas decisões têm que ser rápidas e outras exigem conhecimento especializado"

Comecemos com a velocidade: não é possível chamar uma assembléia ou plebiscito a cada decisão a ser tomada em sua instituição, universidade, município, estado ou país. Algumas questões precisam ser abordadas de imediato; o planejamento de qualquer ato de gestão se torna impraticável sem que haja um direcionamento central que possa resolver divergências entre os diferentes interesses que se apresentam em qualquer comunidade.

Quanto à especialização, há questões que devem ser decididas tecnicamente. Não seria prudente realizarmos um plebiscito a cada mês para saber se a população acredita ser melhor aumentar ou diminuir a taxa de juros, pelo simples motivo que a maioria de nós não tem capacidade técnica para analisar a economia nacional e tomar esta decisão. Uma assembléia não deveria ter o poder de desconsiderar um parecer técnico expedido por especialistas numa determinada área (deveria poder, sim, pedir a opinião de outros especialistas).

Quando não se leva estes fatores em consideração, temos uma forma degenerada de democracia, uma democracia "de fachada", um assembleísmo que tende a desorganizar o planejamento e as atividades necessários para gestão. Diga-se de passagem, assembleísmo populista, pois o povo fica feliz achando que participa das decisões, sem perceber que está, na verdade, partilhando a responsabilidade pela ineficiência.

Voltando a Russell, "devido a estas limitações essenciais, muitos dos assuntos mais importantes têm que ser confiados ao governo, pelo eleitorado". Institui-se, assim, uma instância executiva, que precisa lidar com o funcionamento cotidiano, a gestão mesma de uma organização, e uma instância "legislativa", que pode realizar planejamentos de mais longo prazo. Cabe lembrar que esta última pode funcionar como assembléia (participação efetiva de todos) ou ser representativa.

Qualquer que seja o caso e com respeito a ambas as instâncias, voltamos àquela preocupação inicial de Tocqueville: não basta votar em alguém e se retirar do cenário. Isto não vai contra a afirmação de Russell que abre o parágrafo anterior, pois mesmo naqueles assuntos em que a decisão deve ser tomada sem consulta à população, gestores e governos devem prestar contas por assumir tal ou qual postura.

A solução necessária é a "liberdade política", definida por Gerard Lebrun (em O Que É Poder) como "a participação efetiva dos cidadãos nos negócios públicos. Só ela pode impedir a atomização do tecido social que favorece o despotismo". Esta participação se dá pela ocupação efetiva de espaços políticos e públicos. Não basta ficar nas mesas de bar, calçadas e corredores reclamando dos gestores (personalismo): temos que nos mobilizar e reivindicar nossos interesses, quando não for possível atingi-los por nós mesmos. Foi o que a comunidade UFBA fez no ano passado (vejam post de Wagner Teles sobre o caso).

Um interesse importante em nossa cidade é que as instâncias descritas acima sejam efetivamente independentes, de forma a que uma possa fiscalizar o funcionamento da outra; em outras palavras, a Câmara dos Vereadores não deveria ser mero apêndice do Executivo Municipal. Este espaço pode ser ocupado pela população, seja individualmente cobrando seus Vereadores, seja organizando movimentos para mobilizar a Câmara como um todo, ou ainda participando em todas instâncias em que tem representação e voz.

Lembrem-se, apenas, que estes espaços não são dados: precisam ser conquistados.

por Márcio Carvalho

quinta-feira, 14 de julho de 2011

"Era uma cidade muito engraçada", por Márcio Lima

Estou em casa um dia pela manhã, quando escuto a campainha. Eram umas senhoras com uniformes da prefeitura, questionando-me o nome da rua. “Depende”, respondi-lhes. “Para a prefeitura, não há nome. Apenas a designação do lote. Para a embasa, é um, mas para a Coelba, outro, que foi dado pelo carteiro. É o mesmo da rua transversal. Para facilitar seu trabalho, o rapaz resolveu fazer desta rua uma continuação da outra, de modo que hoje há duas ruas, reunidas pelo mesmo nome, em formato de L”.

As senhoras pareciam contratadas pela prefeitura para entregar a cobrança do IPTU. Belo avanço. Todas as vezes em que paguei esse imposto, tive de ir eu mesmo buscar a fatura. O problema é que, pelo menos no bairro onde moro, a missão não terá muito êxito. A pedida delas, lá fui eu então procurar meu nome em meio aos carnês. Eu não estava lá, mas elas me asseguraram que ali só havia uma parte das cobranças. Acabei encontrando nomes conhecidos, e até tentei ensiná-las a chegar à casa deles; devido, porém, à disposição das ruas bairro, elas ficaram mais perdidas do que antes. Se as ruas tivessem nomes, talvez só o GPS pudesse encontrar sem antes ter de sofrer um bocado dando voltas e mais voltas

As nossas ruas não têm saneamento, não têm esgoto. Isso falta em muitas cidades brasileiras, embora a realidade de Barreiras seja pior que a da maioria, mesmo daqueles onde a economia vive do fundo de participação dos municípios. Todavia, ainda mais elementar do que isso é que o lugar da cidade onde a pessoa se identifica de imediato, ou seja, sua rua, tenha um nome, e um número de identidade: o CEP. Esse é o melhor exemplo da administração pública de Barreiras. Mais ainda: é a expressão perfeita de como é a vida pública da cidade. A própria prefeitura não consegue cobrar impostos porque ela não fez seu trabalho mais essencial.

Onde está a câmara de vereadores nessa hora? Distribuindo títulos de honra para as pessoas se tornarem cidadãs barreirenses. Fernando Machado chamou a atenção para um desses grandes feitos. A honraria concedida ao grande benfeitor da pátria, o ex-ministro do trabalho Alfredo Nascimento. Este senhor aparecia, em 2008, na campanha da candidata de seu partido à prefeitura de Barreiras, Jusmari Oliveira. Dizia que a obra do anel viário resultava na atuação da então deputada federal. Fazia parte do jogo político. De outro lado estava o então ministro da Integração Nacional Geddel Vieira Lima, garantido que a obra era de seu Ministério, querendo com isso obter votos para seu candidato, Antonio Henrique. Alfredo Nascimento acabou de cair, mergulhado em mais um escândalo de corrupção no Brasil. Geddel deixou o posto que ocupava, Antônio Henrique perdeu a eleição e Jusmari levou o pleito. Como no poema Quadrilha de Drummond, vemos os nomes em pleno movimento. O que ficou parado foi o anel viário, que continua lá, sem dar o ar da graça. Enquanto isso, as carretas continuam tumultuando o trânsito na única via da cidade, além de deformar o asfalto, também único, mas obra federal, já que asfalto foge de Barreiras, igual o diabo da cruz. Nossas ruas, por seu turno, continuam entregues aos buracos, à poeira (até virem as chuvas), ao esgoto, um bocado sem nome, a maioria sem CEP.

Não devemos, contudo, desanimar, pois já “estão falando altos pelos botecos” onde será construída a futura capital do novo estado, cujas ruas deverão ser asfaltadas com verbas do Ministério dos Transportes, já que a administração local terá muito o que fazer: conceder títulos de cidadão para a cidade que precisará de muitos herdeiros. À espera dos naturais, muitos filhos ilustres terão de ser adotados.

por Márcio Lima

"Nobre Parlamentar", por Wagner Teles

Talvez seja inadequado o título, afinal não é bem sob o regime de parlamento que funciona o que nos habituamos a denominar de Câmara Parlamentar. Diz-se que, por arrogância característica da classe política, os deputados batizam os seus pares com o nome de parlamentar. Como a linguagem é o que nos define, seja por arrogância ou não, a verdade é que os indivíduos que representam o povo da Bahia na assembléia legislativa tanto merecem o título que não se trata de um elogio tratá-los como parlamentares, mas antes a palavra “parlamentar” é que tem a sua dignidade elevada ao ser empregada para um fim tão nobre. Se as coisas se passam assim com os parlamentares da triste e dessemelhante Bahia, o que dizer da parcela parlamentar mais competente do estado, aquela que representa o povo do Oeste? Louvores, louvores, louvores. É pelo nome de vossa diligência que eles atendem.

A título de ilustração, todos sabem que o Instituto de Ciências Ambientais e Desenvolvimento Sustentável da UFBA, há pouco tempo, ficou cerca de três meses em greve em virtude das precárias condições de acesso aos seus novos prédios. Meses com as atividades de ensino paralisadas, professores, alunos e técnicos engajados em torno de uma causa comum, manifestações nas ruas da cidade; várias assembléias, diversas reuniões com a Prefeitura Municipal de Barreiras, audiências com o Governo do Estado, com a Reitoria da UFBA, com a Presidência da Assembléia Legislativa do Estado. Por fim, tantas e tão variadas ações para simplesmente dar com os burros n’água...

Como “a união faz a força, mas nem por isso se deve por tanta água no leite”, as aulas voltaram ao normal. Porém, há algumas semanas, para surpresa de todos, publicou-se que a ordem de serviço para execução do acesso ao campus seria imediatamente expedida pelo Estado por força da intervenção de uma jovem parlamentar. Preservemos a identidade da notável parlamentar, ao tempo que nos resguardamos da acusação de apologia partidária, batizando-a com um codinome qualquer – Kelly.

Ora bem, noticiou-se que a tal Kelly conseguira num átimo, com algumas poucas palavras, aquilo que uma unidade universitária não havia conseguido em meses de desmesurado esforço. “No mais tardar, na próxima semana, os trabalhadores estarão no local a executar a obra”, vaticinara a nobre parlamentar. Houve quem caísse em prantos com a notícia que parecia não passar de mais um sinal dos tempos.

“Descompostura!” Bradavam alguns por ignorar que “Deus só dá os dentes a quem não tem nozes.” “Oportunista!” Acusavam-na injustamente outros tantos. Que mal há em resolver um problema, com uma fotografia ao lado de autoridades do Governo, para o qual meses de militância política não foram capazes de sequer reivindicar claramente a solução? Não compreendo a indignação e revolta, afinal não era asfalto o que queriam? Faça-se o asfalto, disse a parlamentar, e o asfalto fez-se. E que culpa tem a parlamentar se professores, alunos e técnicos de uma Universidade ignoram completamente a lição mais elementar em matéria de política? Tudo pode ser resolvido com uma fotografia.

Todo sábio político sabe que para ser bom político, antes de tudo, é necessário ter coragem para dizer a verdade e jamais transigir. E sabe também que “palavra demais só custa dinheiro em telegrama.” Afinal, o que diria um político diante de um eleitorado sedento de verdade? A mentira? Não resta dúvida de que o eleitorado em pleno acesso de cólera e justa indignação lhe deporia de sua função a pedrada. E por mais que o bom profissional em política tivesse elaborado habilmente a sua mentira, por mais cuidadosamente que a tivesse ensaiado, o menos inteligente dos eleitores lhe flagraria mentindo. Assim, desacreditado e desmoralizado, o pobre diabo abandonaria a carreira política e talvez, com a ajuda dos astros, conseguisse um emprego qualquer.

Dizem ainda, os mais céticos, que fora feito o asfaltamento, mas falta a ponte. É que eles, por terem pouca fé, não crêem ser verdade o que me contou um amigo. Ele suspeita que a tal parlamentar seja capaz de, uma vez posta abaixo a ponte de madeira, reerguer uma de cimento, ferro e brita em três dias.

Quanto a mim, suspeito que esse feito não passaria de algo a realizar-se ordinariamente nas mãos de uma política tão esmerada em servir aos seus eleitores que segue à risca o lema “do povo, pelo povo, para o povo”. Quanto ao dístico “Mateus, primeiro os teus”, isto é coisa de mau político, coisa rara em nosso vasto estado. Ademais, não se trata de uma parlamentar, mas de um parlamento inteiro, essa tal jovem.

Infelizmente, somente depois de ter enviado este texto para publicação, fui informado por fontes confiáveis que a estrada continua sem asfaltamento e a ponte pior do que antes. Que seja verdade, que nada de ponte e nada de asfalto, mas é verdade também que, como diria o Barão, “quem passou o inverno nu, passa o verão que é mais quente”.

por Wagner Teles

quarta-feira, 13 de julho de 2011

"Quem quer arriscar a vida por 100 reais? Ano que vem tem mais promoção do TEXAS BEER by TABERNA UNIVERSITÁRIA", por Marcelo de Paula

Eu fico imaginando o que ainda falta eu ver aqui na cidade de Barreiras.
Nessa última semana houve a tradicional EXPO BARREIRAS. Nessa feira de exposição foi implantado um BAR chamado TEXAS BEER, um local fechado de músicas sertanejas que, pasmem, cobravam 100 reais (no sábado dia 9 foi 140 reais) para entrar àqueles que não haviam comprado o ingresso adiantado. Esse bar é da empresa TABERNA UNIVERSITÁRIA.

Quando entrei no local, fiquei assustado com o que eu vi!

Como num espaço tão pequeno eles colocavam centenas de pessoas (talvez mais de mil) sem a menor condição de segurança?

NÃO havia saídas de emergência!

NÃO havia sistemas de ventilação!

NÃO havia extintores de incêndio!

Lotação acima da máxima permitida por LEI !

E o mais revoltante, NÃO HAVIA BANHEIROS !!! Sim caro leitor, você leu certo, NÃO havia sanitários ! Quem precisasse ir ao banheiro tinha que sair do local e ir ao banheiro da feira (com a quantidade de gente no local, isso demorava cerca de 50 minutos até chegar lá).

Como eu tinha os números comerciais de celular dos proprietários (os próprios me deram o cartão quando certa vez fui no taberna universitária) então entrei em contato com eles por meio de mensagem de texto, me identificando e questionando se pelo menos os extintores e os banheiros não seria PRUDENTE instalar no bar .... Segue abaixo a resposta da proprietária:

"É simples querido, não vá mais. Lá é lugar de elite, acho que você não está nesse padrão, PROFESSOR"

O que ainda falta eu ver nessa cidade? Será que a população considera normal pagar 100 reais para arriscar a vida? Será que os proprietários, que se dizem empresários do entretenimento, são tão letárgicos (pra não dizer outra coisa) a ponto de arriscar a vida de centenas de pessoas sem que haja consequências legais para isso?

A população reclama tanto dos buracos das ruas, mas será que pagar 100 reais para arriscar a vida não seria aceitar passivamente os “buracos” do comportamento inadmissível de “empresários” e “comerciantes” que se consideram os donos da cidade?

por Marcelo de Paula
Professor Assistente de Estatística
Universidade Federal da Bahia – UFBA
Barreiras - BA

terça-feira, 12 de julho de 2011

"Somos mais Gaúchos que Baianos?", por Paulo Roberto Baqueiro Brandão

O orgulho pela sua história é um dos importantes traços identitários de uma sociedade. Mas este orgulho não é inato. Ao contrário, resulta de um processo de construção coletiva que envolve, entre outras coisas, a lembrança dos fatos históricos importantes para o grupo por meio das comemorações anuais, o que, em geral, se dá através dos feriados e dos festejos públicos. Isto contribui para conectar indivíduos, que passam a perceber traços comuns, e para a coletividade que daí se constitui.

No caminho inverso, quando se quer desconstruir determinados laços identitários, tal processo passa necessariamente pela ação deliberada de um grupo visando relegar ao esquecimento alguns dos fatos importantes da história de uma sociedade. Assim, ao não comemorar um feito pretérito, abandona-se o passado, o que incide no orgulho da sociedade e, em última instância, no próprio sentido de coletividade.

No caso de Barreiras, dois fatos podem ser exemplares para entendermos como se dá a (des)construção de laços identitários através da História: os festejos da Independência da Bahia e da Semana Farroupilha.

***

A Independência da Bahia é considerada a data magna do estado. Comemorado no dia 2 de Julho, o festejo representa a consolidação da autodeterminação do Brasil, já que o propalado “Grito do Ipiranga” parece não ter chegado aos ouvidos das elites portuguesas que viviam no Nordeste. Uma história constituída por fatos de sangue e sofrimento, de luta e dor, mas que serviram para garantir a unidade nacional.

Em Barreiras, embora o feriado seja respeitado, afinal as empresas e repartições públicas não funcionam na data citada, não há qualquer tipo de festejo ou celebração à data magna estadual. Nenhuma lembrança sequer. Não há desfile cívico, bandas marciais ou hasteamento das nossas bandeiras oficiais, algo tão comum em outros municípios baianos.

Esta falta de interesse pela Independência da Bahia é até compreensível, já que, ao que tudo indica, Barreiras sequer existia naquele ano de 1823. Outros dirão ainda (e com alguma dose de razão) que as repercussões das lutas pela autodeterminação demoraram a chegar no Oeste Baiano e que, por isso mesmo, parecem mais legítimas as comemorações nos municípios do lado de lá do Rio São Francisco do que neste nosso vasto cerrado.

É preciso considerar, porém, que, se hoje todos nós, baianos do Leste e do Oeste, podemos nos identificar como brasileiros, isto é possível também por causa dos muitos índios, negros e brancos que tombaram sob a bandeira da liberdade. Devemos a eles, portanto, todas as homenagens, honrarias e lembranças.

A quem interessa esquecer... ?

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A Semana Farroupilha é o período máximo de expressão do orgulho gaúcho. Celebrados entre os dias 14 e 20 de setembro, os festejos e desfiles homenageiam os líderes da revolução mais duradoura do Brasil, que se estendeu de 1835 a 1845, e tinha como objetivo transformar a então província imperial de São Pedro do Rio Grande do Sul em uma república. O projeto político era, portanto, de caráter separatista.

Em sessão ordinária ocorrida no dia 18 de maio de 2010, a Câmara de Vereadores de Barreiras aprovou, por unanimidade, o projeto de lei n. 003/2010, de autoria do vereador Geovani Souza, no qual se propunha a oficialização da data magna dos gaúchos no calendário cívico do município.

Em outras palavras, graças à força da migração sulista, fatos históricos que ocorreram em terras gaúchas e que tiveram repercussões decisivas apenas naquele estado passarão a ser guardados, comemorados e festejados por todos os moradores de Barreiras, tenham eles nascido no Sul do país, no próprio município, no Ceará ou em qualquer outra localidade de onde afluíram os muitos indivíduos que constituem a população local.

A quem interessa lembrar... ?

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O propósito deste escrito não é debater o nível de importância desta ou daquela data comemorativa ou a primazia de uma sobre a outra como elemento da construção da identidade barreirense. Mas é fato que uma delas vem sendo valorizada por setores específicos da sociedade local em detrimento da outra. Isto impõe uma reflexão.

O discurso simplista e ufanista da distância geográfica e identitária que nos separa da Bahia que tem cara, cor e cheiro de Recôncavo não pode ser evocado como reflexo do desinteresse barreirense pelo 2 de Julho. Se assim o fosse, tal ideologia teria ainda mais validade como contra-argumentação a um suposto interesse da sociedade local pela História gaúcha.

A (des)construção deliberada da História já foi evocada como elemento fundamental da implantação de ideologias falaciosas e que contribuíram apenas para gerar atraso nos corações e mentes de quem disseminou e absorveu tais ideias. É fundamental, portanto, que atos desse tipo não ganhem força, seja aqui ou em qualquer outro lugar.

por Paulo Baqueiro

segunda-feira, 11 de julho de 2011

"Cidade de Barreiras - BA: Terras especulativas, buracos, esgoto e a gasolina mais cara do Brasil", por José Antonio Lobo dos Santos

A cidade de Barreiras está entre as mais importantes do estado da Bahia, a diversidade dos seus mais de 137 mil habitantes somada à posição estratégica do município como produtor e corredor logístico de deslocamento de grãos faz desse aglomerado urbano um ponto importante dentro da hierarquia das cidades baianas, o que coloca Barreiras entre as dez cidades mais importantes do estado da Bahia. Não podemos esquecer também que além da força na produção de grãos, há também o papel marcante da agricultura familiar produzindo o alimento que abastece as feiras livres e os sacolões da região. Destacamos também o forte comércio e oferecimento de serviços que dominam o mercado consumidor da região oeste. Até ai a coisa vai relativamente caminhando, a saga incompreensível de descasos, incompetências e ganância começa quando nos debruçamos para analisar as formas de ocupação da terra urbana, a existência de intermináveis buracos na cidade e a revenda de gasolina com preços exorbitantes e absurdos.

Terras especulativas
O monopólio especulativo dos muitos terrenos baldios existentes na cidade de Barreiras funciona diretamente para seus proprietários e indiretamente a outros setores da economia, como instrumento de obtenção de renda capitalizada. Ao tempo em que gera uma grande bolha especulativa no setor imobiliário, o que contribui decisivamente para aumentar o preço dos aluguéis e dos imóveis. Essa estratégia faz com que o acesso ao imóvel próprio, principalmente para a classe trabalhadora com menor renda, se torne praticamente impossível.

Os intermináveis buracos
A estrutura urbana é totalmente comprometida, a pesar da cidade de Barreiras ser dinâmica e estar entre as mais importantes da Bahia. Falta de drenagem, pavimentação, e rede de esgotamento sanitário, ter esgoto correndo a céu aberto nos bairros e no próprio centro da cidade é muito comum. A materialização mais perceptível dessa pitoresca realidade são os buracos, os muitos buracos que pipocam por todos os cantos da cidade. Verdadeiras crateras por todas as ruas, realidade que de certa forma delimita o grau de descompromisso dos governantes com o bem estar da população, principalmente com a parcela de menor renda da cidade. Bairros populares como a Vila Rica, a Cascalheira, o Parque Novo Horizonte e a Morada da Lua estão totalmente esburacados, digo isso da pouca pavimentação que existe nessas localidades, pois nessas áreas a grande maioria das ruas é desprovida de qualquer pavimentação, é triste a realidade dos milhares de moradores desses bairros os quais, além de conviver com a fedentina e todas as doenças causadas pelo contato direto com o esgoto ainda tem que enfiar o pé na lama para poderem sair de casa e simplesmente viver suas vidas.

A gasolina mais cara do Brasil
Outro título de “peso” que a cidade de Barreiras ostenta no Brasil é a de ter a gasolina mais cara do país, um título vergonhoso, e que ao mesmo tempo demonstra o desequilíbrio e os desatinos existentes nesse pedacinho de chão que parte da elite regional insiste em separar do estado da Bahia. O preço da gasolina varia entre três reais (R$ 3,00) e três reais e dez centavos (R$ 3, 20), sendo que muito antes do último aumento liberado pelo governo a gasolina já era comercializada em média por dois reais e noventa e cinco centavos (R$ 2,95). A desculpa esfarrapada é com relação ao custo de transporte da gasolina entre o centro produtor na região metropolitana de Salvador e a cidade de Barreiras. Desculpa que não cola, pois o acréscimo colocado em cada litro de combustível é muito alto. Na verdade o que norteia esse valor absurdo da gasolina na cidade é a ganância e o espírito empreendedor da exploração, onde muitos empresários do setor com conivência dos poderes públicos e de órgãos de fiscalização se aproveitam da vulnerabilidade dos motoristas e de um certo isolamento da cidade para explorar, tirar o couro dos clientes e de forma indireta se apropriarem das rendas universais de toda a sociedade barreirense. Além disso, essa prática absurda de preços para os combustíveis contribui diretamente para a criação de uma bolha inflacionaria em toda a região.

Considerações
Ao contrário dos discursos ideológicos essa realidade nos mostra que não há nenhuma consideração com a população e muito menos com o desenvolvimento da região, pois entendemos o desenvolvimento como um processo de criação de possibilidades para a emancipação social, porém, a buraqueira, o esgoto, os terrenos especulativos e a vergonha nacional do preço da gasolina estão totalmente na contramão desse processo. O que fazer para combater essa triste realidade de descaso e descompromisso com as pessoas? Os caminhos são muitos, vamos buscá-los para poder enfrentar essa excludente e desrespeitosa realidade.

por José Antonio Lobo dos Santos
Professor assistente do curso de Geografia
do Instituto de Ciências Ambientais e Desenvolvimento Sustentável/UFBA.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

"Revisitando o Tema: Verticalização e Desenvolvimento Urbano", por Paulo Baqueiro

No último dia 30 de março de 2011, um leitor anônimo fez um comentário, motivado pela leitura do post publicado em três partes no OesteMaquia por mim e pelo Prof. Marcelo Latuf sob o título “O que significam as atuais alterações no Plano Diretor de Barreiras” (postadas entre junho e julho de 2010). Naquela sequência de textos, buscamos analisar crítica e tecnicamente a aprovação, pela Câmara de Vereadores, de um projeto segundo o qual a altura máxima das edificações construídas em Barreiras passaria de sete para até 30 andares, ao passo que os lotes teriam reduzidas as suas dimensões mínimas para 125m2, ou seja, menos da metade do padrão anterior, que era de 360m2.

No seu comentário, o leitor afirma não entender a nossa argumentação, mas, ainda assim, se sente à vontade para esboçar algumas opiniões. Além de apresentar uma abordagem extremamente simplista e ter uma interpretação muito particular do conteúdo do texto, o Sr. Anônimo demonstra possuir uma visão equivocada do conceito de Progresso e, portanto, do ideal de Desenvolvimento a ser buscado.

Ao que me parece, a opinião do leitor não passa de um coro ditado por muitas vozes dos que aqui vivem. Não de hoje, percebo que existe um certo “fetiche da verticalização”, tanto em Barreiras, quanto em Luís Eduardo Magalhães, pois o arranha-céus é identificado no imaginário coletivo como um exemplo de pujança econômica, praticamente um símbolo fálico, diriam os estudiosos da mente humana.

Por conta de todas estas questões, pareceu-me adequado revisitar o tema do Desenvolvimento Urbano – motivo das postagens em debate – tomando como base, para tal, as próprias indagações do leitor. Necessário pontuar que, ao contrário do que fez o Sr. Anônimo ao comentar a sequência de textos, buscarei por foco no assunto sem incorrer em ironias nem tampouco em maniqueísmo.

Sobre o conceito de Progresso e a sua aplicação ao tema do Desenvolvimento Urbano, é importante observar que o seu uso é constantemente afetado pelo senso comum do mesmo modo que o de Desenvolvimento: confunde-se a idéia de que o crescimento econômico experimentado por uma cidade, região ou país deva ser encarado como Progresso/Desenvolvimento.

Progredir (ou desenvolver-se) é, na verdade, participar de um processo de acréscimos qualitativos. Um aluno, por exemplo, progride quando aprende (acepção qualitativa), mas não necessariamente quando tem boas notas (acepção quantitativa). No caso da cidade, o Progresso deve ser tomado como uma ampla evolução que se dá em âmbito social, econômico, político, cultural e tecnológico. Nisto, aliás, Barreiras se mostra muito pouco progressista, pois o vertiginoso crescimento da economia local não se transforma em melhorias qualitativas para uma grande parcela da população.

Assim, quando se afirma algo a respeito do Progresso de uma cidade (a partir daqui, tomarei este termo como sinônimo de Desenvolvimento Urbano), é muito mais importante atentar para as condições de vida da população, as contradições do crescimento desordenado (tanto para os lados, quanto para cima), o acesso aos bens, equipamentos e espaços públicos e, tão fundamental quanto os demais, a participação dos seus moradores nas decisões sobre tudo que lhes diga respeito. Se uma cidade não oferece nada disto, não adianta possuir um mar de edifícios altos, envidraçados e abarrotados de alta tecnologia, pois todo esse aparato só revelará uma grande e vergonhosa concentração de renda e, consequentemente, uma estúpida fragmentação socioespacial.

Aliás, é bastante curioso observar o seguinte fato: entre os dez maiores edifícios do mundo, apenas dois estão localizados em um dos dez países com os maiores níveis de IDH do mundo. Coincidência? Não! Apenas a confirmação do que afirmei acima: a pujança econômica recentemente experimentada por países como Emirados Árabes, Taiwan, China ou Malásia não garantiram a mesma medida de acréscimos qualitativos para as suas populações.

Importante frisar, ainda, que, ao contrário do que afirma o leitor anônimo, não é o Progresso que força a verticalização, mas a especulação imobiliária. Esta, por sua vez, não é “filha” do Progresso, mas da usura de quem a pratica. O solo urbano possui uma função social, que deve estar acima da sua valoração econômica. Ao menos assim concebe a Lei n. 10.257/2001 (Estatuto da Cidade). Se esta função social não é cumprida e, ao mesmo tempo, existem terrenos baldios aos montes em espaços privilegiados da cidade, o construtor é levado (mas sem reclamar, pois também se beneficia disto) a edificar moradias ou estabelecimentos comerciais um sobre o outro. Isto significa, enfim, maximização de lucros.

No que se refere à poluição urbana, concordo com o leitor quando afirma que este mal está presente na maioria das cidades. Mas não deveria ser assim. Mais do que isto: aceitar – como propõe o Sr. Anônimo – que tenhamos que tornar precária a nossa convivência com o Meio Ambiente em favor do avanço do Capitalismo é contrário a um instinto básico de todo ser vivo: o de sobrevivência.

Quanto à premissa apresentada pelo leitor segundo a qual um centro urbano só poderá ser considerado como tal se possuir edificações do tipo arranha-céus, abrirei mão de debater este tema à luz dos conceitos de cidade e de urbano para apresentar alguns exemplos que podem clarificar bastante a questão. Importante advertir que não há aqui qualquer pretensão em comparar as cidades a serem citadas com Barreiras. Pretendo apenas ilustrar os meus argumentos.

O primeiro exemplo: em Barcelona, segunda maior cidade espanhola, com cerca de dois milhões de habitantes, e um dos ícones europeus da beleza e dinâmica urbanas, as edificações, na sua grande maioria, não possuem altura superior a dez andares (inferiores, portanto, aos agora permitidos em Barreiras). Isto a partir de um projeto concebido e executado no século XIX, a famosa Ensanche de Ildefons Cerdà!! Naquela cidade quase desprovida de vertiginosas edificações, o sistema de coleta de lixo por encanamentos subterrâneos é considerado como um dos mais importantes avanços recentes em termos de gestão urbana.

O segundo exemplo: a capital da Islândia, uma cidade chamada Reykjavik, com cerca de 195 mil habitantes, possui uma população pouco superior à de Barreiras. Por outro lado, é uma das urbes mais bem saneadas e com níveis de segurança, escolaridade e qualidade de vida mais expressivos do mundo. Isto sem possuir uma quantidade grande de arranha-céus. Assim, como afirmado pelo próprio leitor, seria um exemplo de cidade formada por “casas de um pavimento” e uns “prediozinhos”.

Desta forma, se partisse do princípio esboçado pelo Sr. Anônimo, segundo o qual um centro urbano só mereça ser assim chamado se possuir arranha-céus em profusão, teria que admitir que, apesar de promoverem o Progresso de modo muitíssimo mais adequado que a forma como o fazemos, tanto Barcelona quanto Reykjavik seriam tão somente “roças”, para usar um termo empregado pelo próprio leitor.

Por outro lado, nós, os autores dos textos comentados pelo leitor, estamos cientes (mas não comungamos com a idéia) que, dentro do Capitalismo, o ideal a ser perseguido é a maximização dos lucros, custe o que custar (especulação imobiliária, passivos ambientais, fragmentação socioespacial, etc.). Mas somos veementemente contrários ao fato do Estado (Câmara de Vereadores e Prefeitura Municipal de Barreiras) propor e sancionar medidas que beneficiem setores econômicos em detrimento da grande maioria da população, que pagará o ônus da ilusória verticalização da cidade.

Por fim, saliento ao leitor a necessidade de abordar o tema despido da visão maniqueísta com a qual emitiu sua opiniões, afinal, é absolutamente equivocado pensar que ou temos arranha-céus ou vivemos na “roça”. Em cada um dos extremos (na cidade grande e no campo) e mesmo entre um e outro (nos espaços rururbanos), existem inúmeras possibilidades de reprodução social, múltiplas formas de vida e de interação. Isto sim é salutar e desejável. Quanto aos arranha-céus, tenho cá as minhas dúvidas.

Por Paulo Baqueiro (Professor da UFBA)

terça-feira, 3 de maio de 2011

“Barreiras na travessia”, por Valney Dias Rigonato

Barreiras é uma importante cidade na região do Oeste da Bahia. Um município banhado pela fronteira do agronegócio. Há na cidade a concentração de vários serviços, instituições, multinacionais e outras. Além disso, é notório o crescimento (des)ordenado do espaço urbano. Em sua própria toponímia guarda o papel dos rios – rio Grande e o rio de Ondas - enquanto obstáculo das territorialidades pretéritas. No entanto, talvez hoje os obstáculos do passado servem enquanto travessia para as territorialidades presentes.

Uma típica cidade que perpassa pelas metamorfoses da fronteira agrícola moderna. Tal realidade pode ser visualizada também em Chapadão do Céu (GO), Rondonópolis (MT), Balsas (MA) e também em Luiz Eduardo Magalhães (BA) é, evidente que cada uma com suas especificidades espaciais.

Barreiras, portanto, situa-se no encontro desses dois importantes mananciais: rio de Ondas e o rio Grande. O primeiro, fonte de inspiração da população local em suas estórias, fonte de lazer e motivação científica para várias pesquisas. O segundo, majestoso pela sua própria natureza, cuja ocupação ultrapassa as áreas de preservação permanente. É, também na foz do rio de Ondas que germinam os grãos de areia que potencializam a construção da infraestrutura urbana e, mormente brotam relações humanas ímpares.

Legenda: Os areeiros na foz do rio de Ondas em suas atividades trabalhista diária.
28 de Abril de 2011. Rigonato, 2011.

Como se observa na figura acima é na travessia que alguns moradores de Barreiras retiram a sua sobrevivência. O areeiro: ator emblemático da paisagem do rio de Ondas o qual utiliza enquanto sua atividade trabalhista para a própria sobrevivência. Ambas desenvolvidas na travessia. Personagens que encontraram na travessia a possibilidade de interrelação do seu modo de vida com o modo de vida imposto pela modernidade.

Segundo, os próprios areeiros “Hermenegildo, Azulão, Brito, Lourival e Nossa” a atividade é árdua, porém compensatória para a sobrevivência. Diariamente um areeiro retira em média quatro metros de areia que correspondem, quatro a cinco barcos. Além disso, os mesmos afirmaram que existem aproximadamente 100 trabalhadores, ou melhor, areeiros.

Diante dessa realidade, torna-se importante frisar que o agronegócio dilapida as paisagens do Cerrado. Com isso, amplia-se o quantitativo de sedimentos e as desigualdades sociais tornam-se mais acirradas.

Essa travessia é o lócus do encontro do tradicional com o moderno. O encontro das velhas e novas territorialidades. Lugar típico da sedimentação da exploração das relações de trabalho, da intensificação da relação sociedade-natureza e, sobretudo, lugar no qual emerge a ressignificação das especificidades espaciais de Barreiras (BA).

Assim, para os profissionais da Geografia as paisagens é um quadro humano revelador dos atores das transformações espaciais. É importante contemplá-las e significativo, observá-las, senti-las e ouvi-las. O Instituto de Ciências Ambientais e Desenvolvimento Sustentável – ICADS, da Universidade Federal da Bahia e, consequentemente o curso de Geografia estão atentos às transformações dessas paisagens.

Enfim, que os atores e autores do rio de Ondas possam compreender que os sedimentos naturais e sociais de outrora já não possuem a mesma gênese socioambiental do presente.

por Valney Rigonato
Professor do ICADS/UFBA
Coordenador do LAPEGEO – Laboratório de Ensino,
Pesquisa e Extensão em Educação Geográfica.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

"Terrenos Baldios e Especulação Fundiária na Cidade de Barreiras - BA", por José Antonio Lobo dos Santos

O modo capitalista de produção busca a todo momento a expansão, para tanto, adota as mais diversas estratégias como formas de territorialização no processo de produção do espaço. Nesse sentido, o geógrafo David Harvey, no livro a produção capitalista do espaço, vai nos dizer que a constante expansão do capital por meio das mais diversas estratégias é uma condição intrínseca ao próprio sistema como garantia de sua própria sobrevivência, uma vez que, problemas que possam acarretar estrangulamentos na produção, na circulação e no realização da mercadoria, que é o consumo, vão gerar crises como formas estruturais de reestruturação do próprio sistema. Nesse sentido, se faz de suma importância compreender as estratégias que norteiam o processo de produção e reprodução ampliada do capital no espaço, principalmente no espaço urbano, onde o filósofo marxista e sociólogo Henry Lefebvre, no livro A Revolução Urbana, vai apontar conceitualmente a cidade como o lócus da reprodução do capital.

Com base nessas premissas, busco analisar nesse pequeno texto o processo de produção e reprodução ampliada do capital na cidade de Barreiras – BA, por meio da especulação fundiária via propriedade privada no espaço urbano. Para tanto tomaremos como referência o intenso processo de especulação fundiária existente na cidade como instrumento de manutenção permanente da acumulação capitalista. Acumulação que por meio da obtenção de renda capitalizada vem se concretizando como uma forte estratégia de reprodução de capital na cidade em questão. Para manter essa estrutura reprodutiva, que o filosofo Karl Marx no século XIX, vai chamar de rentista, se faz necessário um rigoroso controle da terra por meio do monopólio, ou seja, da propriedade privada.

Nesse caso, é importante entender de que forma o monopólio dos muitos terrenos baldios existentes na cidade de Barreiras funciona diretamente para seus proprietários e indiretamente a outros setores da economia, como instrumento de obtenção de renda capitalizada. Ao tempo em que gera uma grande bolha especulativa no setor imobiliário, o que contribui decisivamente para aumentar o preço dos aluguéis e dos imóveis. Essa estratégia de obtenção de renda capitalizada também faz com que o acesso ao imóvel próprio, principalmente para a classe trabalhadora com menor renda, se torne praticamente impossível. Além disso, dificulta o desenvolvimento de programas sociais de habitação popular, a exemplo do Programa Minha Casa Minha Vida do Governo Federal, por conta da falta de terrenos disponíveis para a construção de casas populares. Outro reflexo negativo do predomínio do monopólio é a ausência de investimentos no setor imobiliário, visto que, o uso improdutivo dos terrenos como estratégia rentista encarece os mesmo e com isso afasta investimentos externos na construção de imóveis para revenda financiada.

Outro problema causado pela grande quantidade de terrenos baldios “improdutivos” na cidade é com relação a proliferação da Dengue, uma vez que, segundo dados oficiais mais de 80 focos de dengue já foram identificados em terrenos baldios. Posso citar também o aumento da violência, pois a falta de limpeza dos terrenos, onde se formam grandes matagais coloca em risco a seguranças das comunidades, pois essas áreas favorecem que pessoas que querem cometer determinados delitos possam usar esses terrenos como esconderijo.

Diante desse contexto, se faz de suma importância discutir e elucidar essas questões e com isso contribuir para a elaboração de uma argumentação crítica sobre o monopólio da terra para a acumulação de capital e ao mesmo tempo contribuir no sentido de abrir um debate sobre o uso estratégico da propriedade privada por meio dos terrenos baldios como ferramenta de concentração da renda e de exclusão social na cidade de Barreiras – BA.

Esse simplório texto é para chamar a atenção sobre esse grave problema que não é exclusivo da cidade de Barreiras, porém, se manifesta como estratégia capitalista de acumulação com muita força nessa cidade.

A sociedade civil organizada deve cobrar intensamente da prefeitura municipal e de outros órgãos competentes que combatam essa monstruosa situação, pois a legislação vigente (Constituição Federal e Estatuto da Cidade) dá o devido suporte para isso. Por lei a terra obrigatoriamente deve ter função social caso não esteja tendo, o poder público pode desapropriar e destinar, nesse caso, os referidos terrenos para ocupação de interesse social, a exemplo, de área para construção de casas populares, praças públicas e outras.

A cidade de Barreiras não pode continuar sendo tratada como uma província ou um campo de soja dominada por certas famílias que usam a todo tempo as áreas rurais e a própria cidade para atender seus interesses. Aqui já são mais de 137.000 mil habitantes os quais não aceitam mais essas regras arcaicas e conservadoras e, portanto merecem o devido respeito.

por José Antonio Lobo dos Santos
Professor assistente do curso de Geografia do Instituto de Ciências Ambientais e Desenvolvimento Sustentável/UFBA.

quinta-feira, 24 de março de 2011

"Os (Ver)dadeiros Buracos de Barreiras", por Marcos Mondardo

Na véspera do início do carnaval em Barreiras e na Bahia, como é que vamos pensar, escrever e falar sobre buracos, nos buracos de uma das principais cidades do Oeste baiano. Inevitavelmente, vemos, faça sol e principalmente faça chuva, brotarem e se espalharem pelas ruas, buracos e mais buracos, o que leva alguns ainda revoltados com essa situação a afirmarem que “a cidade tá destruída”, “a cidade tá abandonada”, “a cidade não tem mais jeito”, “aqui quem lucra são os mecânicos”, ou, aqueles mais acomodados falarem “isso é Barreiras mesmo”, “você está em Barreiras”, “aqui é assim, desse jeito, cheio de buracos mesmo”, e que leva a qualquer recém-chegado a cidade a comentar: “aqui não tem prefeito?”.

Para se ter noção do descaso, com aquele velho empurra-empurra e do jeitinho brasileiro do poder público local, surgiu até nos bairros periféricos de Barreiras, a TV Buraco, uma versão bem humorada da crítica popular e do desabafo da população efetivamente abandonada dos bairros periféricos. Todos os dias moradores dos bairros Cascalheira e Vila Rica, por exemplo, sofrem com a “desgraça do buraco”, um povo que tem sua mobilidade limitada e precária com as chuvas que abrem e enchem de água e lama os buracos. Mas o problema “gigante” dos buracos das ruas é apenas a “ponta do iceberg”. É preciso ir além, muito além dos buracos. Em muitas ruas os problemas não são simplesmente os buracos, mas a falta de asfalto, rede de esgoto e, em alguns casos, água potável e energia elétrica. A universalização radical de serviços básicos tem tanto o papel de distribuição indireta de renda como, por outro lado, provocar a necessária diminuição do poder imobiliário privado (em articulação com o público) sobre o acesso e permanência à moradia, uma das questões centrais e que parece ser “esquecida” em meio aos buracos de Barreiras.

Mas é interessante perceber, que esse mesmo recém-chegado irá notar que se não desse uma volta pelos bairros periféricos, iria ver e produzir uma imagem de uma cidade pela conservada BR que corta Barreiras. É impressionante, como a principal rua da cidade sempre está mais ou menos arrumada para os fluxos de caminhões de soja, milho, algodão, de máquinas do agronegócio, de mercadorias do comércio, de carros e motos, de ônibus e pedestres. Entretanto, ao rodar pelas ruas ao lado dessa BR, a realidade emerge, vem a superfície com muito vigor e saúde, são os buracos que surgem pipocando na frente de carros, motos e pedestres, quase ganhando vida na cidade pois é fácil criarmos amizade com o buraco da rua tal de tanto que o já conhecemos, que já sofremos com ele, faça chuva ou faça sol. Conhecer Barreiras é, portanto, conhecer seus buracos. E, quantos buracos, trechos de ruas praticamente intransitáveis em que é inacreditável como os carros, motos e o “coitado” do pedestre conseguem passar, adaptando-se as condições precárias de trânsito, de mobilidade e de acessibilidade. Apenas quem tem uma caminhonete se dá bem, mas, como eu, como você, não temos uma S10 e muito menos uma Land Rover, a maioria se dá muito mal. A cidade, por esses buracos e muito outros, parece um queijo, toda furada, toda roída e corroída por ratos, e quantos ratos...

Se no período da construção de Brasília governar significava abrir estradas, em Barreiras governar parece ter como função principal abrir buracos. Mas, a função do governo municipal não era fechá-los? E que dificuldade em enxergarmos um simples (nada simples em Barreiras) tapa buracos. Enquanto as estruturas do carnaval começam a ser levantadas pelo mesmo poder público no centro da cidade, os buracos se avolumam, “se afundam”, ou afundam pela precariedade das vias cada vez o principal município do Oeste Baiano. Mas, como podem surgir na cidade “berço” do agronegócio mundial e das belezas naturais, tantos buracos? De onde vêm tantos buracos? Da chuva, do sol... E quantos buracos existem, já existem estimativas, ainda não facilmente comprovadas, que exista um buraco para cada habitante em Barreiras! Que belo argumento para a próxima campanha eleitoral, a campanha dos “tapa buracos”. Parece unânime, o problema são os buracos!

Mas, de onde vem o problema e de onde virá à solução é que os habitantes se perguntam. Aqueles moradores dos bairros periféricos onde transitar já não é mais um direito de ir e vir, mas, sim, um desafio constante, mais um desafio na vida dessas pessoas que lutam diariamente pela sobrevivência e que, agora, lutam, também, para conseguir sair de casa, para o simples deslocamento e acesso ao local de trabalho, seja pulando, seja se contorcendo, seja batendo o motor ou amortecedor do carro, seja colocando o pé na lama nos inúmeros, superficiais, profundos e intermináveis buracos.

Quantos, como eu, como você, já não pensaram, já não se cansaram de pensar, mas porque, porque os buracos em Barreiras não são arrumados, tampados, fechados, parece ser tão fácil. Então qual é o verdadeiro “buraco”: falta de vontade política, falta de recursos, falta de pressão popular, falta de respeito do poder público pela população dos bairros periféricos... Ou, Barreiras é só para o agronegócio transitar pela BR que corta a cidade? Só transitamos pela BR? Parece que são outros os verdadeiros “buracos” que precisam ser estancados para que os buracos das ruas realmente venham a ser fechados. Fechar outros buracos, estancar outros veios de “água” que surgem não só nas ruas, nos buracos, é uma prioridade fundamental que só ocorrerá com mudança política, com mudança de “buraco”. Mas, afinal, de que “buraco” falamos. De vários, são tantos os buracos em Barreiras que às vezes até nos confundimos, não sabemos mais qual rua tomarmos, qual rua escolhemos para ver se temos a sorte de encontrarmos menos buracos. Por isso, temos que pensar realmente, qual o principal “buraco”, qual a verdadeira força da “chuva” ou do “sol” que está causando esses tantos outros buracos em Barreiras.

Por isso tudo e muito mais, em Barreiras a regra é escancarar para camuflar, é escancarar o problema para torná-lo natural, é escancarar para negar a solução, para torná-lo comum e como parte do dia-a-dia dos pobres, mas, por isso, como parte do dia-a-dia dos pobres esses mesmos buracos permitem ver outros buracos, mais profundos, e que precisam ser destampados, desenterrados, para que, vendo o verdadeiro tamanho do buraco, começamos a encontrar os meios para tapá-lo. E é em nós, eu, tu, ela, ele, vós e eles, seja da indignação às proposições, que as possibilidades precisam emergir. Como temos que colocar o pé na lama diariamente para passar pelos buracos de nossas ruas, teremos que por o pé na “lama” para fecharmos outros buracos, pois, em Barreiras, “o buraco é sempre mais embaixo!”.

Por Marcos Mondardo
Morador de Barreiras, Geógrafo e professor do Curso de Geografia ICADS/UFBA

quinta-feira, 10 de março de 2011

"Será Que a Prefeita Sai de Casa Quando Chove?", por Paulo Baqueiro

Hoje pela manhã (16 de fevereiro de 2011), ao tentar sair da minha residência para trabalhar, fui surpreendido com a visão da enxurrada na minha porta, um espetáculo digno de toda a exuberância hidrográfica das cachoeiras do Acaba-Vida e do Redondo. Enquanto tentava atravessar o volumoso curso d’água, me veio à mente a imagem da Prefeita tentando fazer o mesmo que eu naquele momento de chuvas intensas.

Caso tomasse a decisão de caminhar ou trafegar em bicicleta da sua residência à sede do Executivo municipal, as consequências poderiam ser graves, pois, convenhamos, com o corpo diminuto que possui, certamente pereceria diante da força das águas (não sei por que, mas me lembrei do post que o Prof. Sandro escreveu sobre o 2 de fevereiro...). Porém, na hipótese de ter conseguido escapar de tão furiosa ação da Natureza (sempre culpada, oras!), teria que enfrentar o dilema de andar/pedalar nas calçadas – com água até a altura dos tornozelos – ou em meios aos carros, onde a profundidade é, por assim dizer, tolerável. Seria desesperador!

Como não ficaria bem à figura de tamanha importância chegar em frangalhos no escritório oficial, passei a cogitar a possibilidade da Chefe do Executivo municipal seguir em direção ao trabalho em transporte coletivo. Teria que enfrentar a triste situação de proteger-se da chuva em uma parada de ônibus lotada, cheia de goteiras e com lixo boiando em torno dos pés. Pensando bem, apesar de constrangedora, a espera pelo transporte até teria uma finalidade didática, já que seria uma verdadeira prévia do que viria após ingressar no veículo. Não duvido que a Prefeita aprenderia as “manhas” de ser usuária dos ônibus coletivos de Barreiras.

Por outro lado, toda prefeitura, por mais ineficiente que seja, possui carros oficiais para o deslocamento das suas autoridades. Assim, refiz meus devaneios e imaginei a mandatária do município em um belíssimo “chapa branca”, tentando se desvencilhar dos buracos que se multiplicam no que já foi a pavimentação asfáltica de Barreiras. Mais fantasioso ainda é pensar em quem ela culparia, quando, ludibriada pelas águas pluviais não escoadas, a nossa incauta personagem caísse em uma daquelas valas existentes na interseção das vias.

Pobre destino o da nossa Chefe do Executivo: viver em uma cidade onde nada se fez para lidar com a destinação das águas pluviais, onde o transporte público se deteriora a cada dia e, enfim, onde não se teve a menor preocupação em promover acessibilidade, nem em dias de chuva, nem em dias de sol. Por outro lado, como diriam os mais velhos, “dos males, o menor”: já pensou se a Prefeita morasse na Vila Rica, Vila Brasil, Morada da Lua ou Cascalheira?! Aí sim, ela estaria – perdoem o trocadilho – “com os burros n’água”!!

Na verdade, toda esta “saga” que idealizei, tendo a Prefeita como personagem, é realidade na vida de milhares de barreirenses que lidam com problemas semelhantes aos relatados sempre que precisam sair de suas moradias em dias de chuva. Tais problemas resultam, pura e simplesmente, de gestões equivocadas naquilo que é atributo fundamental de toda municipalidade: promover política de infraestruturação urbana e oferta de serviços públicos de qualidade.

Diante de tudo isto, começo a pensar na inadequação da frase-título deste texto em relação àquilo que pretendi expressar como indignação diante da realidade que vigora em Barreiras. Ao que tudo indica, seria mais apropriado perguntar: Será que a Prefeita dorme em paz quando chove?

Por Paulo Baqueiro (Professor da UFBA)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

"O Estilo Magalhães", por Márcio Lima

Antes que 2011 me escape por completo, vou finalmente retornar ao blog. E vou recomeçar tratando de coisas do ano velho. O fato é que meu último post provocou muitos comentários na movimentada página de Fernando Machado. Houve quem me acusasse de ser cabo eleitoral de Jusmari por causa do texto. Não vou defender-me de tal acusação. Como já fiz antes, invoco meus textos sobre o governo cidade-mãe já publicados aqui mesmo. Muitas, porém, foram as diatribes que a agora deputada Kelly escreveu contra mim em seu blog, no seu melhor estilo Magalhães.

Lendo o que ela escreveu, parece que a ex-estudante de letras não sabe bem interpretar um texto. Mas não se trata disso. Mesmo escritas, as palavras de Kelly trazem a marca do palanque, com suas frases de efeito, enunciadas para arrebatar o tipo de público a que ela está habituada, em que cada bravata é seguida de ovação. Mas como não integro seu público, faço o trabalho que ela se eximiu de fazer em relação ao que escrevi, ou seja, analisar o que está escrito. Transcrevo, por partes e na seqüência em que foi escrito, o texto dela, e comento em seguida. Peço desculpas pelo tamanho final deste post. O dela vai em vermelho e o meu em preto.

O professor doutor Márcio Lima, que não conheço pessoalmente, com muitas e boas titulações e coordenador do Curso de Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades, escreveu em seu blog um texto intitulado DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL.
Achei estranha a relação que o doutor Márcio Lima fez entre o filme de Glauber Rocha e o seu texto discorrendo de forma tendenciosa e equivocada sobre a política local e minha eleição para deputada estadual.

DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL aborda de forma metafórica o fanatismo representado nas figuras do SANTO SEBASTIÃO (Deus) e CORISCO (diabo) deformados pela solidão e miséria do sertão e de como Manuel, vaqueiro que matou o patrão escravista foge do matador profissional e se embrenha entre os dois líderes. Em síntese, o filme conta as alucinações, as visões, as práticas e os modos de condutas aberrantes que a fome, a miséria e a ignorância podem inspirar num povo desesperado.

Com quase 120 anos de existência, uma cultura miscigenada, um crescimento vertiginoso e ao mesmo tempo desordenado, Barreiras é um grande município, com um grande povo; tem seus altos e baixos, é verdade, mas, nada, nada mesmo que possa ser comparado ao que o filme de Glauber Rocha retrata. Vivemos no Estado democrático de direitos, temos liberdade de expressão, a presença de universidades e faculdades vai consolidando uma nova mentalidade e as pessoas tem exercido o seu direito de crítica e de voto. Portanto, não vejo paralelo entre a realidade de Barreiras e a retratada no filme.

Kelly afirma não ter entendido a relação que fiz entre o filme de Glauber Rocha, Deus e o diabo na terra do sol, e a realidade de Barreiras. Se ela não consegue entender o que escrevi, como poderia compreender o que eu não disse? Ora, em nenhum momento comparei o filme à cidade. Eis, então, que a comparação é feita por ela mesma. Depois de expor-nos uma breve sinopse do filme, Kelly nega que a simbologia ali contida possa ser aplicada à cidade de Barreiras. Ficamos sabendo, dentre outras coisas, que o filme fala da miséria do povo e de matadores profissionais. Vejam você que a nossa comunista diz que um filme que trata da miséria do povo e de matadores de profissionais nada tem a ver com Barreiras.

As eleições de 2010 tiveram como pauta principal a questão religiosa, revelando que uma face do Brasil ainda é conservadora e usa de artifícios do passado num mundo moderno. Doutor Márcio, demonstra não aceitar o resultado das urnas em 2010 e crê que os "evangélicos fiéis à prefeita" foram responsáveis pelo "instigante" resultado eleitoral. Não sou evangélica e sei que a maior parte do meu eleitorado não está entre os evangélicos. Mas, respeito e não faço distinção de votos por credo, raça, sexo ou estrato social. Na urna, somos iguais, absolutamente iguais.

Primeiramente, não falei que o resultado das eleições era instigante, mas intrigante. Pode ter sido um ato falho, revelando o que Kelly no fundo acha de meu texto. Seja como for, gostaria que ela demonstrasse onde afirmei, em meu texto, que não aceito o resultado das eleições. Ademais, diante de minha consideração de que os evangélicos foram decisivos para sua eleição, ela, muito justamente, considera todos os votos como sendo iguais (como se eu tivesse negado isso). Mas, após enunciar tal obviedade, Kelly argumenta que a força política dos religiosos no cenário brasileiro atual revela uma face do Brasil conservadora num mundo moderno. Interessante. Seria preciso lembrar a quantos religiosos conservadores a moderna deputada está ligada atualmente? Diga-me com quem andas e te direi quem és. Apenas chamo a atenção para o juízo de valor que a vereadora fez sobre os religiosos.

Doutor Márcio alega em texto que nada pode esperar de mim como deputada porque tenho o mesmo discurso: defender a prefeita e agir dessa forma por que não tenho trabalho para mostrar. Em sua veia feroz de ataques, o doutor Márcio vai mais longe e diz que minhas ações se devem a um suposto acordo/pacto ou compadrio para me eleger deputada. Pobre Barreiras, com tantos doutores e tão longe do conhecimento que possa ser proporcionado para que todos nós possamos ter líderes melhores.

Mantendo-me sempre no nível de uma análise política, referi-me ao acordo entre Kelly e Jusmari como sendo uma aliança política. Kelly, no entanto, denomina ela mesma tal acordo como “compadrio”, termo que não existe em meu texto. Seria outro ato falho?

Em meu texto. Eu havia questionado qual trabalho Kelly fez nos dois últimos anos. Veja a resposta dela:

Repito o que o doutor Márcio disse, por que na condição de vereadora, não conheço nenhum projeto de extensão que o doutor Márcio tenha feito na condição de Coordenador do Curso de Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades. Sugiro que o doutor promova debates isentos com a comunidade local sobre política e formação de líderanças como contribuição legítima de quem quer o melhor para Barreiras.

Quanta condição. Sua reposta, porém, é de uma clareza imensa. Kelly não fez nada, mas diz que estamos quites, porque também não tive nenhum trabalho de extensão no último ano. Para Kelly, numa cidade com 11 vereadores, como em Barreiras, significa o mesmo um vereador não fazer nada além de defender aliados, e um professor universitário supostamente não desenvolver atividade de extensão. Mas podemos dimensionar de outra forma a resposta. Ao dizer que em um ano não tive nenhum trabalho de extensão, Kelly sugere que sou omisso em um dos tripés que sustentam as atividades da Universidade. Ora, se sou omisso, por que mesmo Kelly está publicamente respondendo a mim? Talvez o debate que ela sugere que eu faça não seja aquele que desenvolvo no blog. Reparem que ela usa a palavra isenta. O que Kelly deve entender por isenção? Defender Jusmari? Kelly não está satisfeita com a aprovação unânime que Jusmari tem na Câmara, ela quer mais.

Vou traduzir literalmente uma passagem do filósofo françês Michel de Montaigne que o doutor Márcio usou para combater uma crítica do Jornal São francisco quando do debate sobre a criação do Estado do Rio Sâo Francisco: "Todos estão sujeitos a dizer tolices; o mal está em as enunciar com pretensão: 'Este homem provavelmente vai expor-nos, com ênfase, algumas enormidades(Terêncio)'. Este segundo ponto não me diz respeito, porque não dou maior atenção às bobagens que me escapam. Felizmente para elas, pois as negaria imediatamente se devesem prejudicar-me, ainda que ligeiramnete. Nada compro ou vendo por preço mais alto do que vale. Escrevo como falo ao primeiro indivíduo que encontro, contentando-me com dizer a verdade."

Kelly, você não traduziu esta passagem de Montaigne. Quem o fez foi o grande Sério Milliet. Você a copiou de nosso blog. Mas continuemos.

Em verdade doutor Márcio, o senhor como professor, pode e deve conhecer todos os dados sociais, econômicos e estatísticos da nossa região; afinal, só transmite conhecimento quem tem. Julgar as pessoas e os políticos ao sabor das conveniências, em nada contribui para melhorar e avançar no desenvolvimento da nossa realidade. Como o senhor mesmo disse, chegou aqui em meados de 2006 e se acha no direito de dizer as tolices que disse a meu respeito. Normal, faz parte do jogo democrático e como política estou sujeita a isso mesmo.

Em meus textos, nunca analiso dados sociais, econômicos ou estatísticos. Não tenho qualificação para tanto. Ao contrário, Márcio Carvalho e Paulo Baqueiro fazem isso com maestria, e já publicaram textos esclarecedores sobre a região neste blog. Vejamos, por lado, a conclusão desse argumento. Por que cheguei aqui em 2006, estou impossibilitado de fazer análises e, pasmem todos, mesmo que seja acerca dos fatos ocorridos a partir de 2009. Kelly é mesmo de impressionar. E, mais curioso ainda, ela começou o texto dela invocando os 120 anos da história de Barreiras. Pela lógica de Kelly, sou forçado a questionar se ela estava aqui há 120 anos para poder fazer essa afirmação. De toda sorte, pautei minha análise apenas no biênio 2009-2010 porque me inquietavam as conseqüências políticas que a aliança (Kelly chamaria de compadrio) teve (e tem) para a cidade. Nada disse sobre os fatos anteriores, pois a aliança dela com Saulo, por exemplo, não estava em questão.

Porém, repilo a tentativa de desqualificação e acusações de fiz acordos espúrios com o fito de me eleger. Ninguem se elege do nada ou apenas na força do compadrio ou de conchavos; Barreiras está longe disso. Tenho serviços prestados a essa cidade como cidadã e como política. Meus doi mandatos de vereadora e meu mandato de deputada estadual são frutos de uma trajetória de lutas e conquistas. Me estranha que uma região que elegeu 3 deputados estaduais e 01 federal apenas eu seja motivo de uma análise que nivele tão por baixo.

Deputada, como meus textos políticos se referem à realidade de Barreiras (a única cidade que posso acompanhar), só poderia tratar de sua eleição, pois desconheço o que os outros dois fizeram nas cidades onde atuam ou atuavam. Por isso afirmei que nos dois últimos anos, a sua obra foi atacar os adversários e defender a prefeita Jusmari. Vejam na seqüência como ela responde a essa afirmação.

Política é feito de ônus e bônus com qualquer escolha que façamos na vida. Fui parte integrante de uma coalizão que elegeu a prefeita Jusmari Oliveira e faço parte da sua bancada de sustenção;

Explicar por que ela ataca os adversários nem é preciso, pois sua resposta é a mais pura expressão desse seu estilo. Pelo visto, faço parte do grupo a quem ela deve atacar. Quanto à defesa incondicional da prefeita, Kelly simplesmente diz que foi parte integrante de uma coalizão que elegeu a prefeita Jusmari Oliveira e que faz parte da sua bancada de sustenção (sic). A ex-vereadora não refuta o que eu afirmei, mas se apressa em apresentar uma justificativa. Mas quando perguntei se em seu mandato de deputada estadual Kelly vai continuar na mesma toada dos dois últimos anos ou se vai modificar, ela respondeu:

não veja, no sistema político atual, onde isso possa ser considerado crime ou motivo de críticas e como isso possa ser usado como medidor para o meu desempenho no mandato de deputada estadual.

Aqui, tomada de indignação que dá mostras de uma carapuça, Kelly se revolta com a análise que fiz sobre o processo político dos atuais donos do poder. Ora, em momento algum disse que a aliança entre ela e Jusmari seria um crime (outro ato falho?). E, no fim, a resposta é de uma clareza meridiana. O que ela (não) fez como vereadora não serve como referência para seu desempenho “enquanto” deputada. Portanto, podemos nutrir ainda alguma esperança. Longe de Jusmari, ela pode, enfim, realizar algum trabalho, é o que ela parece dizer.

Todas as minhas iniciativas, projetos e Leis produzidas nos meus 06 anos de mandato estão a sua disposição; quanto ao meu mandato como presidente da Câmara, tenho prazer em lhe dizer que sua chegada em meados de 2006 para UFBA, foi fruto de uma grande articulação política das mais diversas matizes que colocaram as disputas menores de lado e se uniram em torno de projeto maior para a região; e esse projeto doutor, inclusive com a doação do prédio do Pe. Vieira, teve a minha participação direta como presidente do Legislativo que promoveu a Audiência Pública com os deputados federais que se comprometeram a empenhar suas Emendas pessoais para o imediato funcionamento do Campus.

Para rebater minha afirmação de que em dois anos ela só fez defender a prefeita, Kelly dá a entender que meu ingresso na UFBA se deve a uma grande mobilização política que deixou as diferenças de lado, configuração da qual ela fez parte. É tudo o que ela tem a dizer em seu favor, no melhor estilo da política de cabresto do Brasil. Nem vou fazer considerações sobre o significado dessa política, mas apenas lembrar que meu ingresso na UFBA deve-se à aprovação num concurso público a que fui submetido. Onde o ICADS estivesse, lá eu estaria. Portanto, deputada, não lhe devo favor algum, tampouco a algum político local, como você parece sugerir.

Pergunto-se me se Kelly se sente agradecida pelos políticos que implantaram o Campus da UNEB em Barreiras. Será que a atual deputada sabe que grande parte, se não a maioria, das Universidades Federais foram criadas durante o Regime Militar? Mas ao sugerir que lhe devo algum favor porque ela participou de uma reunião que aprovou a cessão de uma escola municipal para a instalação da UFBA, Kelly comete aquilo que em lógica se chama de uma falácia argumentativa: uma tentativa de estabelecer uma relação de causa e efeito onde não há, como se o preço da vela atestasse as virtudes do defunto.

O melhor, porém, é que para rebater a afirmação de que em dois anos nada fez além de defender Jusmari, Kelly só consegue invocar uma “ação” sua da época que Saulo era prefeito. Isso significa que na gestão anterior ela ainda era impelida a realizar algo. A cada vez que tenta me refutar, mais ela vai me dando razão.

Faça valer o tripé essencial de uma Universidade pública doutor, e chame todos os deputados sem rancor e pensando num projeto de desenvolvimento e nos apresente idéias e sugestões para melhorar a vida do povo e da região. Isso é extensão que junto com a pesquisa e o ensino, consolidam a qualidade da Universidade. Estou a sua disposição.

Pedindo licença para usar suas palavras doutor, repito o que senhor usou em artigo sobre a questão do Jornal São Francisco:

" Se é útil esconder a verdade em prol de uma causa, ainda prefiro estar na companhia de Montaigne. E para que a utilidade não se sobreponha à honestidade, é preciso que a verdade seja dita."

Com muita solércia, Kelly reproduz minhas próprias palavras, usando-as contra mim. Segundo ela, meu artigo esconde a verdade porque estou escrevendo em benefício de uma causa. A intenção dela é mostrar que escondo a verdade em prol de uma causa, embora ela não diga qual é.

Em todo caso, se Kelly havia nos tranquilizado quanto ao seu futuro desempenho como deputada estadual, quando questionada sobre seus projetos, em vez de responder sobre o que podemos esperar dela, ela parte pro ataque. A esperança com que antes ela havia acenado era na verdade um dardo venenoso que agora ela lança. Se eu estiver esperando por algo, que trate de fazer, ou então convoque os deputados e apresente-lhes soluções.

Isso é o corolário de seu lamento feito antes, o de que Barreiras não tem bons líderes políticos por omissão dos doutores, que não promovem cursos de extensão para formar melhores quadros. É a própria Kelly quem nos informa da qualidade dos líderes barreirenses. Aliás, esse é o único momento em que estamos de acordo, pois também compartilho do lamento. Mas sua fórmula para resolver o problema, embora assaz esperta, é de uma mediocridade gigantesca. Parece que os últimos dezesseis anos de nossa política nacional não ensinaram nada a Kelly sobre a relação entre doutores e lideranças políticas.

Querendo usar minhas afirmações contra mim para sustentar que falto com a verdade, a cada sentença Kelly revela que tenho razão. Aliás, algumas delas eu anunciei em forma de pergunta, e a própria vereadora respondeu. Por fim, como parece ter gostado muito das citações que utilizo, vou deixar mais uma para Kelly: “podemos mentir com a boca, mas com a expressão da boca ao mentir dizemos a verdade”. (Nietzsche).

Por Márcio Lima

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

"02 de Fevereiro", por Sandro Ferreira

Hoje, dois de fevereiro, muitos brasileiros buscam as águas para uma conversa com elas, ou com as entidades religiosas que as representam. Em Salvador, no Rio Vermelho, muitos, muitos mesmo, vão realizar pedidos ou agradecimentos a Yemanjá, numa festa mundialmente conhecida. Aqui em Barreiras, numa cerimônia ainda nem tão conhecida assim, o povo de santo (do Candomblé e da Umbanda) se encontra com o Rio Grande para falar com Oxum, a orixá das águas doces.

Essa celebração no cais de Barreiras está envolta numa simbologia enorme. É muito mais do que uma cerimônia religiosa, é a oportunidade de chegarmos perto dos nossos rios para uma reflexão sobre o que eles representam para nós. Ainda mais, é também uma oportunidade de olharmos para o céu e pensarmos porque os deuses dos trovões, os orixás dos raios, têm reagido tão ferozmente contra o povo, mandando chuvas torrenciais que derrubam encostas, matam milhares. Verdade que aqui em Barreiras as chuvas até são bem vindas, apesar dos estragos que fazem (ou evidenciam) nas nossas ruas.

É tempo de falarmos com as águas, de reverenciar o Rio Grande. Pensar quantos estragos estamos fazendo nele, poluindo-o, extraindo dele água demais para irrigar produtos que sequer ficam nas nossas mesas. Recentemente fomos surpreendidos com o dia em que parecia que o “mundo havia acabado” (nas palavras de um ribeirinho) quando de repente o rio preto secou de repente, simplesmente porque alguém resolveu do nada fechar uma represa sem pensar nos milhares que vivem, quase que veneram, estes rios.

“O sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão”. (Antônio Conselheiro)

É hora de pedirmos proteção a Yemanjá e a Oxum. É hora de nos apegarmos a todos os saberes, especialmente aqueles que interpretam a complexa relação do homem com a natureza. Hoje, numa linda festa, de um povo que insiste bravamente em manter suas tradições mesmo sofrendo todo tipo de preconceito de nossa “democrática” Barreiras, teremos a oportunidade de nos reconciliarmos com “todos os santos, encantos e axés” desta terra, para quem sabe um dia, aprendermos a conviver com a natureza e com nós mesmos.

- Por Sandro Ferreira

terça-feira, 23 de novembro de 2010

"Deus e o Diabo na Terra do Sol", por Márcio Lima

Quando cheguei em Barreiras, em meados de 2006, deparei imediatamente com uma manifestação contra um projeto do então prefeito Saulo Pedrosa. Algo relacionado à Baía de Guanabara. A nossa, claro. Aquela pressão popular seria apenas uma demonstração do que eu poderia perceber depois: a grande impopularidade do ex-prefeito. Tanto que os dois anos restantes foram de extremo desgaste, culminando com uma votação inexpressiva da candidata da situação, Maria Anália, nas eleições municipais de 2008. No pleito deste ano, quando soube da candidatura de Saulo para a Câmara Federal, cheguei a pensar que a forma como ele conduziu o fim de seu mandato e a sucessão havia sido uma estratégia.

Impopular como estava, indicou alguém sem uma carreira política consolidada para colher ele próprio os frutos dois anos depois. Assim, pensava eu, sabendo que não conseguiria ser reeleito, tampouco fazer sua sucessora, Saulo anteviu que a (o) próxima (o) prefeita (o), por não ter feito nada em dois anos (2008-2010), estaria ainda mais impopular que ele, de modo que o caminho para sua candidatura seria menos árduo. Trocando em miúdos: se o povo achava ruim seu governo, veria que sua sucessora era ainda pior. E como o povo só olha para o instante, quem estiver contra Jusmari, estará ao lado do povo. Não sei se foi esse realmente o cálculo, mas as eleições de 2010 têm um quê de intrigante.

Ora, parece-me que a gestão atual padece de uma rejeição ainda maior que a anterior. Em grande medida, o fator essencial para a eleição de Jusmari foi a esperança de que ela representava o novo e de que finalmente seria a solução para os problemas de sempre. Como isso não aconteceu, a revolta permanece. Todavia, se a atual prefeita gera tamanha insatisfação, por quê, dos três deputados eleitos, dois são seus aliados? Para mim, a única explicação possível é que há uma parcela de eleitores “fiel” à prefeita, ou seja, os evangélicos. E tenho boas razões para deduzir que eles realmente foram o fiel da balança. De fato, basta visitar a página de Fernando Machado e perceber que, quando é publicada alguma matéria sobre a prefeita, os comentários em apoio a ela são todos de teor religioso.

E assim caminha nossa política local. Quando Saulo era o prefeito, impossível imaginar que a situação podia piorar. Mas piorou. O que nos faz pensar que, embora inimaginável, as coisas podem ficar ainda mais trágicas. Podemos esperar uma boa atuação dos dois deputados da base de Jusmari? Vejamos, por exemplo, o caso de Kelly Magalhães. Nas entrevistas que concede e em seu blog, o discurso dela tem sempre o mesmo matiz: ataque aos opositores e defesa ferrenha e incondicional de sua aliada. O que é normal, principalmente quando não se tem trabalho para mostrar. E é justamente esse o problema, pois seu discurso é sua obra. Pergunto o que fez a vereadora nos últimos dois anos de seu mandato que lhe dá crédito para um bom mandato de deputada? Nesse tempo, sua obra foi quase que exclusivamente defender a prefeita, e para tanto usou seu cargo de presidente de câmara. Fato, aliás, para o qual não precisou de muito esforço, uma vez que não há oposição naquela casa. Fica muito evidente que faz parte do acordo político. Uma oferece apoio irrestrito e incondicional, e a outra assegura os votos necessários rumo à Assembleia Legislativa. Se o pacto tinha validade até as eleições de 2010, talvez haja alguma esperança. Se não, corremos o risco de ter uma deputada em Salvador trabalhando tão-só para contornar as inúmeras denúncias contra a prefeita a Jusmari, caso esta não seja cassada.

Parafraseando um conhecido adágio mexicano, pobre Barreiras, tão perto de Deus, tão longe da Bahia.

Por Márcio Lima