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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

"Como se 'Cria' uma Nação", por Paulo Baqueiro


“Nação Oestina”. Este é um termo largamente atribuído à população do Oeste Baiano quando o tema é a criação do estado do (Rio) São Francisco. Prenhe de um inconcebível ufanismo, a concepção de “nação” é empregada com muito pouca acuidade conceitual, o que pode gerar interpretações extremamente perigosas. Este termo, aliás, nem sequer deveria estar na pauta de discussão sobre a criação da nova unidade federativa, tal é o disparate da sua apropriação como argumento separatista.

Nós, que habitamos a porção do território baiano à esquerda do majestoso “Rio da Integração Nacional”, independente de termos nascido aqui ou acolá, não formamos uma nação distinta do restante dos brasileiros, como sugerem aqueles que fazem uso de tal termo. Dito de outra forma, a tal “Nação Oestina” simplesmente não existe.

O historiador Eric Hobsbawn, na magistral obra Nações e nacionalismo desde 1780, afirma que uma nação corresponde a um quantitativo considerável de pessoas em cujos membros se consideram como membros de uma “nação”. Em outras palavras, para constituir uma nação, um grupo deve ter consciência de tal condição. Assim, é necessário que “os de dentro do grupo”, ou seja, os membros conscientes da sua condição de nação, enxerguem uma dada homogeneidade que os façam se tratarem como iguais e, ao mesmo tempo, os diferencie “dos de fora do grupo”, aqueles que são os demais membros da sociedade da qual fazem parte.

A identificação com elementos materiais e simbólicos que promovem aquilo que Milton Santos chamou de “solidariedade orgânica” é também territorial, pois gera laços entre o grupo e o espaço em que o primeiro se reproduz socialmente.

Para exemplificar, pensemos no Euskadi (País Vasco ou Vasconia, ambos os termos em espanhol), que constitui uma Comunidade Autônoma do Reino da Espanha, mas cujos laços histórico-culturais transbordam para outras comunidades e mesmo para além da fronteira com a França, constituindo um território em dois Estados distintos. O elemento de unidade (que dá sentido à ideia de nação) é o idioma, o euskera (mais conhecido como língua basca). Neste caso, o habitante do Euskadi, pelos valores histórico-culturais que possui, não se vê como espanhol, já que não usa o idioma castelhano. O mesmo ocorre na Catalunha e na Galícia, outras das comunidades autônomas espanholas.

Os palestinos, por sua vez, possuem, além da religião, o idioma e o alfabeto como elementos que os diferenciam dos judeus. Porém, sua ascendência genética – que define a etnia – os aproxima daqueles que expropriam o seu território (os mesmos judeus anteriormente citados). Trago este segundo exemplo para mostrar que, ao contrário do que fazem parecer por meio da propalação do termo em questão nos discursos separatistas do Oeste Baiano, a formação de um sentimento nacionalista é extremamente complexa.

Em outra perspectiva, pensemos nos torcedores de um clube do futebol. Tomemos a mim a aos milhões de torcedores do Esporte Clube Bahia, que nos autodenominamos “Nação Tricolor” como o caso a ser analisado. Todos somos tricolores, é verdade. Mas, antes disto, somos brasileiros, lusófonos, adeptos (ou não) das mais diversas matrizes religiosas existente no Brasil, possuímos identidades territoriais ligadas a bairros ou cidades as mais diversas. Ou seja, não nos distinguimos em nada dos torcedores do Vitória – ou de qualquer outra torcida brasileira – naquilo que importa quando se fala em uma nação.

Portanto, empregar o termo “Nação Tricolor” como um elemento de identificação dos torcedores do glorioso Esporte Clube Bahia serve tão somente para demonstrar a existência de uma coesão que é parcial e momentânea, pois se torna real apenas quando o assunto é futebol.

No caso do Oeste Baiano, que elementos partilhamos, como pretensos formadores da nação, para nos fazermos sentir diferentes dos demais grupos que nos rodeiam? Empregamos um idioma diferente dos demais (gírias e sotaque não contam, por favor!)? Temos uma história regional que se distancia da formação territorial das demais regiões do Brasil Interior? Temos uma formação étnica que nos singulariza diante dos demais brasileiros (e olha que nem deveríamos confundir etnia com nação)? Professamos uma mesma religião? E, por fim, como indivíduos, temos vínculos de unidade, partilhamos os mesmos interesses, nos vemos como iguais?

Não possuímos nenhum dessas especificidades, pois:
  • usamos a mesma língua que os demais brasileiros, com as diversas nuances de sotaque e gírias construídos do contato entre baianos e demais nordestinos, goianos, mineiros e sulistas, bem como da força da mídia, sediada no eixo Rio-São Paulo. Mas, ainda assim, nos comunicamos no bom e velho português;
  • a constituição territorial do Oeste Baiano é parte de um movimento maior da nossa formação geográfico-histórica, resultante da paulatina apropriação econômica do interior do país, iniciada ainda no período colonial;
  • do ponto de vista étnico, somos o resultado eternamente inacabado de diversas misturas, que ocorrem de modo similar em outras partes do Brasil;
  • professamos o catolicismo, o protestantismo, o budismo, o candomblé, qualquer outra religião ou nenhuma delas, do mesmo modo que outras pessoas o fazem pelo restante do país;
  • somos muito diversos nos interesses, desejos, aspirações, classes.


Por tudo isso, somos diversos, heterogêneos, não possuindo o tal elemento de coesão histórico-cultural e territorial que faria de nós, habitantes do Oeste Baiano, uma nação. Assim, ao tratarmos o tema do nacionalismo com seriedade, buscando enquadrá-lo às premissas científicas que o termo merece, a “Nação Oestina” tem tanta validade quanto a “Nação Tricolor”.

A utilização do termo “nação” para designar a população que habita o Oeste Baiano poderá, em um limite extremo, criar cisões que suscitariam extremismos entre os que querem e os que não querem a separação da Bahia. Insistir no uso de tal palavra é, portanto, uma irresponsabilidade. O que sugiro é que, ao invés de celebrarmos a sandice do tal nacionalismo oestino, que nos orgulhemos da diversidade que possuímos, independente destas terras virem a se tornar (ou não, como diria Caetano Veloso) uma nova unidade federativa.

por Paulo Roberto Baqueiro Brandão
Professor de Geografia do ICADS/UFBA

quarta-feira, 6 de julho de 2011

"Quantos pais para uma criança que ainda não nasceu”, por Marcos Mondardo

Nas últimas semanas, no lastro da votação para aprovação de abertura de plebiscito para criação dos Estados de Tapajós e dos Carajás, no Pará, os debates em torno da criação do Estado do São Francisco voltaram à cena de forma acalorada, especialmente, na elite política e também econômica regional. Ao mesmo tempo em que um grupo político da região liberado pelo deputado Hebert Barbosa viajou nesse último mês para o Estado do Tocantins para se reunir com o governador Siqueira Campos e “se informar” ou ganhar apoio político na criação do novo estado no Oeste da Bahia, outro grupo se articulava para, semanas depois, lançar, alterando pela primeira vez o projeto de emancipação política do Oeste Baiano do deputado Gonzaga Patriota que fora escrito no ano de 1998 e que agora, na sua “nova roupagem”, passa a ter como idealizador, além do deputado mencionado, o deputado federal Oziel de Oliveira.

Em meio a mobilizações em Barreiras realizadas pelo grupo de Hebert Barbosa que se reuniu com a elite econômica, principalmente, os comerciantes, outro grupo fazia o maior estardalhaço tornando, a fala do deputado Oziel de Oliveira, transmitida ao vivo da TV Câmara “direito” para a parte da população barreirense, no dia “D” da defesa de criação do Estado do Rio São Francisco, com a reestruturação do projeto. Mas, para além da elite econômica convidada para fazer parte da “festa” e de meia dúzia de populares ligados ao poder público, o grosso da população, como na maioria das vezes, só foi convidada para ler os jornais ou ver, quando viram, o discurso em defesa do novo estado na TV.

Lendo o “novo” discurso em defesa da criação do Estado, vemos os velhos argumentos sendo colocados a favor do desmembramento: a pujança econômica desenvolvida na região nas últimas décadas, o crescimento populacional e o descaso do poder público do Estado da Bahia são os principais. O que chama atenção, por outro lado, o lado menos falado, é que não se tem nenhuma menção às efetivas melhorias das condições de vida das pessoas que o projeto de criação trará, e como trará? O que se tem, e muito, passa pelo forte desenvolvimento trazido pelo agronegócio, pelas grandes empresas agroindustriais – que geram emprego, é claro, não podemos esquecer – mas com que qualidade de emprego, pois o desenvolvimento que queremos, para com e além do desenvolvimento econômico, é o desenvolvimento humano, aquele que melhora as condições de vida das pessoas: na educação, na saúde, no transporte, que torna o dia-a-dia do trabalhador menos sofrido. Mas parece utopia, sonho, devaneio pensar assim, não é?

Na “balada” da agitação por parte das elites políticas e econômicas da região, alguns meios de comunicação afirmavam, “pregavam” que a população “clama(va) pela criação do Estado do Rio São Francisco”. Mas, será que é assim mesmo? Parece, vendo as notícias de alguns discursos e de alguns meios de comunicação, que existe uma “colonização da memória” se instalando, difundida por esses grupos políticos e econômicos, pois tudo só passará a “prestar”, a funcionar, a ter quando o Oeste Baiano se tornar independente. No discurso do “pior não fica”, recebemos de “goela a baixo” o projeto de criação de um novo estado, pronto, acabado, como se a população, maior interessada na melhoria de suas vidas, não fosse importante ser consultada para as reuniões, para ter poder de participação popular, para fazer, efetivamente, e não somente – se um dia sair um plebiscito – para votar a favor ou contra, na construção de uma nova unidade da federação.

Por isso, gostaríamos de ser convidados também para a “festa” da construção do novo estado, para também “comer o bolo”, e não apenas, para depois de realizado o projeto, limparmos o salão. Parece-nos que nesse entremeio de reuniões e organizações de grupos que buscam mobilizar contingentes populacionais, o que está verdadeiramente em jogo, é a disputa pelo exercício do poder, pelo poder político regional da principal cidade da região. Eis o que provoca a próxima campanha política: “surgem vários pais para uma criança que ainda não nasceu”.

por Marcos Mondardo
Morador de Barreiras, Geógrafo e
professor do Curso de Geografia ICADS/UFBA.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

"Carta ao Jornal do São Francisco", por Paulo Baqueiro

Na seção “Celebridades” (?!) do Jornal do São Francisco (edição n. 84), fui citado por uma frase minha na qual tecia críticas ao próprio periódico. Na referida seção, foi mencionado um comentário que eu havia feito, se não me engano aqui mesmo no blog, o qual transcrevo exatamente como está posto no jornal: “Paulo Baquero (sic): ‘Não consigo ler esse Jornal (do São Francisco) (sic) não dá pra saber o que quer, se é de esquerda ou direita. As (sic) vezes é contra o agronegócio, outras a favor’”. Esta frase é seguida então de uma réplica escrita por J. Alfredo, que afirma: “É mesmo, professor, é um jornal eclético, aberto a todas as correntes de pensamento”.

Pois bem, diante da situação, me pareceu propício aprofundar um pouco mais este debate, principalmente pelo que está contido nas entrelinhas, tanto da minha afirmação (que infelizmente foi escrita de forma descontextualizada), quanto da resposta de J. Alfredo.

Importante esclarecer que o que seguirá nas próximas linhas foi enviado ao redator do jornal e, portanto, em determinados trechos, direciono o diálogo diretamente ao destinatário. Assim, segue:

Caro redator,

Em resposta a uma citação do meu nome no Jornal do São Francisco, feita na seção “Celebridades”, da edição n. 84, gostaria de fazer os seguintes comentários:

Vivemos uma época estranha e ainda pouco compreendida, que alguns chamam de hipermodernidade, modernidade líquida ou pós-modernidade. Este modus vivendi é irmão siamês do capitalismo contemporâneo, que é marcado, por sua vez, pelo chamado regime de acumulação flexível, este mesmo que fomenta, por exemplo, a inauguração de um escritório da Bolsa de Chicago em Luís Eduardo Magalhães, uma cidade pequena do mundo subdesenvolvido.

Pois bem, uma das principais características deste momento da História é a forte crise de valores, de referências. O capitalismo prevaleceu e impôs valores que estão sempre ligados ao dinheiro. Foi assim, por exemplo, que a célebre foto de Che Guevara passou a estampar camisas de marcas internacionais, como a GAP, para serem vendidas às classes combatidas pelo próprio líder revolucionário (a ironia é também uma marca da pós-modernidade).

O que quero dizer, caro redator, é que, como afirmara o velho Karl Marx, com toda a razão, nos dias de hoje “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Vivemos numa sociedade onde tudo se metamorfoseia muito rapidamente, deixando as pessoas atônitas. Estas, sem poderem pensar sobre a sua própria existência na mesma velocidade com que as coisas acontecem, apenas aceitam e seguem...

Nós, formadores de opinião (tanto o professor, quanto o jornalista), temos a obrigação de prover a sociedade de âncoras para que esta possa se sentir segura diante dos acontecimentos que fazem a História do presente. Para tanto, ter posicionamentos firmes e claros sobre o que acreditamos é fundamental. Mas não confundir firmeza de posicionamento com dogmatismo, ortodoxia ou enrijecimento do pensar. O que digo é que precisamos demonstrar nossas crenças com clareza, sem confundir.

Algumas vezes, caro redator, me questiono se o periódico cumpre este papel, daí a minha afirmação, reproduzida na edição n. 84. Por exemplo: quando leio textos em defesa dos mais pobres e carentes em um mesmo veículo de comunicação que exalta o agronegócio como promotor do desenvolvimento em um pretenso estado do São Francisco, fico confuso, pois desconheço o modelo político-econômico já implantado no mundo subdesenvolvido no qual a pobreza tenha sido erradicada (ou mesmo mitigada) através dos esforços emanados pela agricultura de alto rendimento. Afinal, os interesses são outros...

Por outro lado, alguns dizem que os posicionamentos de esquerda e direita já não existem mais, ficaram relegados à condição de curiosidades enciclopédicas do “breve século XX”, como diria Eric Hobsbawm. Mas, ao contrário do que se pensa e ainda que sem a clareza de antes, progressistas e conservadores seguem manifestando suas intenções. O problema é que, com discursos modernosos e reciclados, os militantes de esquerda se parecem cada vez mais com os de direita e vice-versa. Muitos até acendem a mesma vela para “Deus” e para o “Diabo”.

Assim, se o ecletismo é uma marca da estética e da cultura pós-modernas, o mesmo não deveria acontecer, ao menos a meu ver, na forma como disseminamos a nossa visão de mundo, as nossas crenças políticas. Há aí dois riscos: o de confundir a quem nos lê ou nos ouve e o de parecermos neutros diante da realidade, algo que, para o bem ou para o mal, nunca somos.

Espero, enfim, caro redator, ter esclarecido as motivações que me fizeram proferir a frase já mencionada. Espero ainda que as minhas críticas sejam absorvidas dentro do mais livre espírito democrático e sinta-se à vontade, desde já, para discordar delas.

Sem mais,

Paulo Baqueiro (Professor do Curso de Geografia do ICADS/UFBA)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

"Do Útil e do Honesto", por Márcio Lima

Gosto muitíssimo da seguinte passagem do filósofo francês Michel de Montaigne: “Todos estão sujeitos a dizer tolices; o mal está em as enunciar com pretensão: ‘Este homem provavelmente vai expor-nos, com ênfase, algumas enormidades (Terêncio)’. Este segundo ponto não me diz respeito, porque não dou maior atenção às bobagens que me escapam. Felizmente para elas, pois as negaria imediatamente se devessem prejudicar-me, ainda que mui ligeiramente. Nada compro ou vendo por preço mais alto do que vale. Escrevo como falo ao primeiro indivíduo que encontro, contentando-me com dizer a verdade” (MONTAIGNE, Michel. Ensaios. “Do útil e do honesto” Tradução de Sérgio Milliet. Col. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1972).

Lembrei-me dela depois de ler as “enormidades” que foram expostas na última edição do Jornal do Estado do São Francisco (Ano I – Edição n. 4, de 25 de setembro de 2010, distribuído junto ao Jornal do São Francisco, Ano V, n. 81). Refiro-me especificamente ao editorial e à apropriação feita de nosso blog. Antes de falar daquele, comento esta. Em tempos de guerra contra a concepção autoral, desconheço as regras para que os meios de comunicação apropriar-se de ideias alheias. Mas o caso é que o Jornal reproduziu um texto meu sem pedir nenhuma permissão. Até aí, tudo bem. O problema é que o periódico não apenas escondeu a fonte, como dá a entender para os leitores que se tratam de reflexões oriundas de um espaço ligado ao Jornal. Está lá estampado no início do texto: “Do Blog”. De qual blog? Assim, o leitor é induzido a pensar que se trata do blog do jornal. Não satisfeito, os comentários deixados no oestemaquia ao longo de seus posts são pescados e lá expostos. Qual a intenção do Jornal em não revelar a fonte de onde ele está tirando o texto? E, mais irônico ainda, as minhas palavras que eles reproduzem contêm justamente uma citação do Jornal do Francisco, que, quando escritas, indicavam a fonte para quem quisesse consultar na íntegra.

Quanto ao editorial, nem sei se posso chamá-lo assim, uma vez que está assinado. Até onde sei, o editorial expressa a opinião do jornal, e não a de um ou outro jornalista particular de seu quadro. Não obstante isso, o texto trata da famigerada criação do Estado do Rio São Francisco. Poucos dias antes, o jornalista João Alfredo participou de um debate sobre o tema, promovido pelos estudantes dos Bacharelados Interdisciplinares da UFBA. E é contra a reflexão de alguns professores – dentre os quais eu – que o Jornal se posiciona em seu editorial. Fato perfeitamente compreensível. São as regras do jogo democrático. Por que as regras do jogo democrático sempre precisam ser lembradas “neste país”? O primeiro ato inconcebível é o nome do professor citado. Eu, Márcio Lima, e Márcio Carvalho temos escrito no blog; ele, além disso, tem participado dos debates sobre a santificação da terra. No entanto, o jornal, referindo-se aos professores da UFBA, menciona um certo Márcio Pinto. Todos os textos escritos e ideias são apresentadas em público, como não poderia ser diferente para quem está num ambiente acadêmico, e se amparam em argumentos, dados, fontes etc. O jornal, no entanto, pretende rebater sem argumento algum. Se o espaço do jornal não é propício à exposição mais rigorosa de ideias, a falta completa delas é um agravante sério. Mas, pior que isso são as afirmações capciosas do editorial para justificar porque, supostamente, somos contra os milagres que São Francisco está disposto a fazer pelo Oeste baiano. Antes de tudo, porque somos forasteiros. Demonstrando o quanto esse forasteiro está imerso nos problemas locais, há pouco tempo aqui, Márcio Carvalho, por exemplo,tem dados sobre a região que os devotos desconhecem, ou fingem desconhecer. Na verdade, milagre não anda bem mesmo com a realidade. Afinal, só é possível esperar pelo milagre se ao mesmo tempo esperar que as leis do real sejam modificadas.

Mas o melhor está por vir. No fim do texto, ficamos sabendo que somos contrários ao novo Estado porque somos aliados do velho carlismo e de seus representantes na região, a saber: Jusmari e Oziel. Aqui, todas as regras do decoro podem ser procuradas no esgoto a céu aberto de Barreiras, pois provavelmente foram jogadas lá. Entende-se também por que o jornal não quis mencionar o endereço do blog. Qualquer um que lesse os textos poderia constatar de imediato a impostura da afirmação. Além do mais, a prefeita e seu marido engrossam o coro dos favoráveis à criação. Se ela está aliada ao governador da Bahia, que é contra, é por mero oportunismo político. Oportunismo, aliás, que está na essência da motivação da maioria que aí está para defender a ideia de criação do Estado. Do ponto de vista político, essa foi a principal hipótese levantada pelo Blog, ou seja, de que a criação do estado serve, em primeiro lugar, para um oportunismo político, e depois para justificar décadas de incompetência administrativa das cidades da região por seus políticos locais. Todavia, o que era hipótese já teve sua primeira comprovação, dessa vez não por parte dos políticos, mas do Jornal do Estado do São Francisco, que de modo oportunista tenta conquistar a simpatia de seus leitores, tentando fazer dos professores os novos vilões da história. Para isso, esconde fonte e distorce ideias.

Se é útil esconder a verdade em prol de uma causa, ainda prefiro estar na companhia de Montaigne. E para que a utilidade não se sobreponha à honestidade, é preciso que a verdade seja dita.

Por Márcio Lima

terça-feira, 14 de setembro de 2010

"O Processo Civilizatório", por Márcio Lima

Durante certo tempo, tive bastante receio – para não dizer pudor – em expressar algumas ideias, tais como as que expus no último texto. Sempre me lembro de um estudante que reclamava de um professor da UFBA por este falar tão mal da cidade que lhe propiciava o “ganha pão”. Meu receio, contudo, não era o de julgar que não se deve maldizer o lugar onde se ganha o salário, mas simplesmente por respeitar esse sentimento a que podemos chamar de ufanismo, patriotismo, amor à terra etc. Eu mesmo, por exemplo, talvez não gostasse de ouvir de um argentino, morando no Brasil, que o tango é melhor música que o samba, que o nível de escolaridade, de cultura, assim como o bem estar social deles é maior que o nosso; que eles já receberam prêmios Nobel, enquanto nós nunca; que nenhum escritor brasileiro chegou ao nível de Jorge Luis Borges. A única coisa que eu poderia dizer em nosso favor é que o futebol brasileiro é melhor que o argentino, arrolando em seguida os nossos títulos de copa do mundo. Ainda assim, como sabemos, eu ainda teria de ouvir que Maradona foi melhor que Pelé. Aqueles fatos parecem lhes dar o direito a essa arbitrariedade. Conheço, portanto, os melindres que o amor à terra desencadeia. Por outro lado, acredito que o ufanismo pode bem ser o ninho onde é chocado o ovo da serpente.

Volto, assim, a uma questão que havia trazido à cena, e que considero o centro em torno do qual as reflexões sobre os problemas de Barreiras devem orbitar. Por que, estando numa região privilegiada em termos naturais, e sendo produtora de certa riqueza, a cidade é tão malcuidada. Só mesmo um estudo que una investigações históricas, geográficas e sociológicas pode dar uma resposta mais concreta a essa questão, traçando um panorama do desenvolvimento por que passou Barreiras desde o início do ciclo do agronegócio. O que quero expressar são apenas alguns esboços que se delineiam de uma perspectiva mais cultural, pois acredito que a cidade que temos hoje é fruto de um processo “civilizatório” que foi se sedimentando durante seu desenvolvimento.

Como os textos do blog têm expressado até hoje, julgo que problema da cidade é antes de tudo político. Não resta dúvida de que os poderes públicos deveriam conduzir o andamento da cidade; se a partir dos anos 80 teve início em Barreiras um ciclo de crescimento econômico, que engendrou naturalmente o crescimento urbano e populacional, as esferas públicas deveriam ter cuidado para que o processo fosse desencadeado de tal forma que não tivéssemos uma cidade como a que se tem hoje. No entanto, ainda há dois componentes fundamentais para a composição da cidade: o setor econômico e a sociedade civil. Quando vemos a atuação desses dois segmentos, a situação não é mais animadora.

Meu olhar de través para a criação do Estado do Rio São Francisco começou quando vi um dia, na porta de uma mansão situada em meu percurso, todo o entulho de construção jogado bem no meio da rua, e o dono da casa saindo com um desses carrões estampando o adesivo em favor do desmembramento. Nesse caso, ainda considero a ausência do poder público o fator fundamental para criar e desenvolver-se com muita força uma cultura que ela é própria danosa à cidade. Antes de citar alguns exemplos que ilustram isso, quero afirmar que a ausência do poder público é essencial para que o espaço comum seja transformado no depositário do lixo privado. Ora, desde os primórdios das reflexões éticas e políticas, sabe-se que quando a sociedade não cultivou ainda costumes que sirvam ao bem comum, o império da lei obriga seus homens a agir em prol da comunidade, até que tais hábitos se tornem costumes (a palavra ética vem do grego – ethos – e seu sentido mais forte é justamente costume). Como os donos do poder não cumpriram – e não cumprem – seu papel, temos hoje uma cidade onde muitos jogam lixo, entulho, restos de construção onde querem; bairros que surgiram sem planejamento, cujas ruas não têm sequer nome, quem dirá CEP; não poderia, claro, deixar de mencionar o asfalto, pra não dizer que não falei das flores. Ao fim e ao cabo, a atuação da sociedade civil se harmoniza tão bem com o poder público que um passa a ser o espelho do outro. Antes que essa afirmação gere qualquer melindre, o caso é ainda mais grave do que aquela frase de todos conhecida de que cada povo tem o governo que merece. Não se trata disso.

A sociedade civil não pode ser identificada imediatamente com “povo”. Para efeitos de minha discussão, por exemplo, uma questão complexa é justamente a diferença entre o povo barreirense e sua sociedade civil. Quando digo povo, não me refiro apenas aos aqui nascidos, mas também a quem mora, trabalha, paga seus impostos, gera renda, joga lixo na rua, polui o Rio de Ondas etc. Nesse sentido, o povo de Barreiras é, para mim, a melhor expressão de um lugar exemplar. Já quase há uma identidade formada pela heterogeneidade, além de uma cidade com ar cosmopolita. Todavia, é desastrosa a forma como a sociedade civil põe em prática sua “urbanidade”. E é esta, não o povo, que se emparelha com o poder público. Mas em termos civilizatórios, Barreiras não tem contra si apenas essas duas esferas, mas também a econômica.

Com a decência da vida política e cultural, bem como com o desenvolvimento urbano, o agronegócio não quer ter nenhum envolvimento, não quer fazer a cidade desenvolver-se. Ele chega, expande suas garras, e o desenvolvimento surge a reboque, por aquilo que inevitavelmente medra a partir de sua riqueza. Imposto e atração de uma rede de serviço e de comércio. Quando penso nos três setores tradicionais da economia, lembro-me de que a indústria se preocupa em promover cultura, ensino, tal como o comércio. O SESC é um serviço nacional importante, da mesma forma os serviços regionais da indústria, como o SESI e o SENAI. E o agronegócio, o que oferece à população nesse sentido? O ambiente cultural criado em torno dele é algo deletério. É um estilo de vida frívolo e vazio, quando não vulgar, exemplificado no cultivo de vida que bem se expressa na música sertaneja e todas as suas variantes.

Há quatro anos em Barreiras, não me lembro de ter acontecido na cidade alguma apresentação de música popular que não fosse de axé ou de sertaneja. O pianista Artur Moreira Lima passou por aqui com seu caminhão musical. Mas isso foi uma iniciativa dele, que com apoio da Petrobrás tem recursos para levar ao interior do país música erudita. Não foi um projeto da prefeitura, tampouco dos “agentes culturais”. Nem aqueles cantores de MPB que faziam sucesso nos anos 70, que estão no nível de Zé Ramalho, mas cuja presença não se impôs, vem a Barreiras. Podem ir a Ibotirama, Barra, São Desidério, aqui jamais. Na cidade não há público, dinheiro, pessoas dispostas a pagar para assistir a bons espetáculos? Estou certo de que há. Isso, a meu ver, é uma forma de vida cultural cultivada a partir da influência do agronegócio. Isso talvez explique por que saneamento básico e asfalto, fatores decisivos para diferenciar o espaço urbano do rural, inexistam em Barreiras. A cidade parece ter-se tornado um lugar encravado no grande fazendão do agronegócio. E tome música sertaneja.
***
Eu havia iniciado este texto antes de ser publicada a matéria da Veja, que tem desencadeado reações, por assim dizer “ufanistas”. Confesso que o título do texto, embora se valha de uma expressão clássica, foi motivado pela reportagem.

Por Márcio Lima

sexta-feira, 28 de maio de 2010

"Estado do São Francisco: uma abordagem Político-Econômica", por Márcio Carvalho

Nesta última terça-feira, dia 25 de maio, participei de uma mesa-redonda intitulada "A criação do estado do São Francisco: vínculos históricos e interpretações". Participaram comigo a Professora Ignez Pitta e o senhor João Alfredo dos Santos, do Jornal do São Francisco; a mesa foi mediada pelo Prof. Paulo Baqueiro (o da UFBA).

Publico, logo abaixo, minha apresentação naquela oportunidade: "Estado do Rio São Francisco: uma abordagem Político-Econômica". Mas gostaria de fazer as mesmas ressalvas que fiz durante a apresentação.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que há outras dimensões a serem analisadas além da política e da economia quando pensamos na emancipação de uma região: são de fundamental importância as dimensões identitárias, geográficas e históricas. Mas, nesta apresentação, analiso apenas uma parte (a questão de arrecadação e repasse de recursos) da política-econômica do estado.

Além disso, o foco da apresentação foi analisar a afirmação, tão ouvida pelo povo da região, que o oeste baiano é abandonado, esquecido pelo Governo do estado (e, em menor medida, pelo Governo Federal). Para tanto, fiz um levantamento da arrecadação de tributos estaduais pelos 35 Municípios da região, e comparei com os repasses do Governo do estado aos Municípios. Compilei também os repasses na União aos Municípios daqui. Os resultados são, para dizer o mínimo, interessantes, nos fazendo pensar que o problema real é a gestão de recursos, e nem tanto sua quantidade.

Os dados são de 2009; por uma questão de espaço, coloquei na tela apenas os valores relativos aos municípios de maior arrecadação, mas os totais apresentados sempre levam em conta os valores dos 35 municípios do que seria o Estado do São Francisco.

Finalmente, gostaria de agradecer ao Colegiado do Curso de Geografia pelo convite: este tipo de evento tem que ocorrer com maior frequência, para qualificarmos cada vez mais o debate.

Estado Do Sao Francisco

Por Márcio Carvalho

quinta-feira, 29 de abril de 2010

"O Coelho e a Alface", por Márcio Lima

Em meus textos sobre as questões, por assim dizer, políticas de Barreiras, tenho tentado refletir a partir de dois pressupostos. O primeiro é que a profusão de problemas e o caos em que está mergulhada a cidade resultam de um período longo de administrações ruins; o segundo é que o discurso de criação do estado do Rio São Francisco caiu como uma luva para justificar esse caos. Vou começar pelo segundo ponto, pois terei de ser breve, dada a insistência com que trato da questão. O desmembramento da região Oeste tem como um de seus princípios de justificação a ideia de que não recebemos a atenção devida. Isso, desde logo, serve para encobrir e maquiar toda a incompetência das administrações locais. No fim das contas, o discurso de emancipação causa uma ilusão ótica, pois a visão não consegue perceber as coisas como elas são. Assim, diante de um buraco na rua, o olhar se volta para o governo estadual em busca do culpado. Minha tese, portanto, é a de que os verdadeiros problemas têm origem, antes de tudo, no abandono local, não estadual. Volto, com isso, ao primeiro ponto.

O ICADS está sem aulas desde o dia 12 de março. Logo completaremos dois meses de paralisação. A ação da prefeitura até o momento resumiu-se a fazer um conserto que de nada serviu. Isso porque o CREA emitiu um laudo apontando todos os problemas da ponte, e os reparos feitos, embora fizessem consertos nos problemas apontados pelo Conselho, não tiveram sua eficácia atestada pelos responsáveis da prefeitura. Em outras palavras, a prefeitura agiu da seguinte forma: reparamos os problemas, mas não garantimos a qualidade do trabalho, tampouco a segurança. Diante disso, uma comissão de professores e alunos fez uma peregrinação a Salvador, em 19 e 20 de abril, reunindo-se com o Reitor da UFBA, a secretária do Governador e deputados da Assembléia Legislativa. Ou seja, fizeram o trabalho que competia à prefeitura municipal. Depois dessas reuniões, um novo diálogo teve início, e o DERBA, órgão estadual, a partir de agora vai ajudar na resolução dos problemas, fazendo finalmente um conserto que garanta o que a prefeitura não garantiu. A reunião dos professores e alunos também conseguiu garantir um indicativo de que finalmente a ponte de concreto será construída com verbas estaduais. Estamos ou não estamos diante de um caso de má administração municipal? Se o município de Barreiras não tem recursos para pavimentar o acesso à UFBA, isso só demonstra os problemas locais e a incapacidade das pessoas que estão no comando, pois só isso justifica a falta de recursos para o investimento.

Como é costume local, houve a tentativa de transferir responsabilidades. Com efeito, duas objeções foram feitas para eximir a prefeitura de sua responsabilidade. Mas, por um efeito inverso ao desejado, ambas justamente realçam a incompetência administrativa. Falou-se, primeiramente, que a culpa era de quem havia mandado a UFBA para a Prainha, e, a seguir, que a própria universidade tinha seu quinhão de responsabilidade, pois além de aceitar instalar-se naquela localidade, acabou por levar centenas de estudantes para ter aulas onde não havia condições.

Se tivéssemos um debate político qualificado em Barreiras, essas objeções não precisariam ser levadas a sério. Mas o pior é que elas ainda surtem os efeitos desejados por aqueles que enunciam disparates retóricos e demagógicos como estes. Por isso, é preciso desfazer o nós desse novelo. Quando administradores dizem que não podem responsabilizar-se por problemas que herdaram da gestão anterior, isso significa a pá de cal, o atestado de óbito do município. Numa cidade que agoniza, como é o caso de Barreiras, é o que há de mais catastrófico. Partindo desse raciocínio, quando um morador da periferia, que vive em meio à lama, ao esgoto, aos ratos, ao lixo, à falta de luz, à falta de transporte decente, reclamar por qualquer melhoria, vai ouvir do administrador: não tenho nada a ver com isso, esses problemas existiam antes de eu assumir o poder. E, o que é pior, seguindo as mesmas justificativas que foram arroladas no caso da UFBA, esse possível morador ainda vai ouvir: a culpa é sua, pois quem mandou morar lá.

Analisemos esse último argumento no que ele diz respeito ao caso da UFBA. Atribuir responsabilidade à universidade por ela ter-se instalado na Prainha parte do pressuposto de que, para suas instalações, outro lugar poderia ter sido destinado. Hoje, após quase quatro anos em Barreiras, seria possível que, conhecendo a realidade política local, os professores que aqui estão não aceitassem a área depois do Rio de Ondas para lá construir os novos prédios. Todos já estariam informados o bastante para saber que não se pode confiar que uma ponte seria construída; tampouco que internet, energia, água encanada chegariam lá facilmente. Mas a universidade veio para cá antes de todos os professores que hoje estão aí. E as pessoas que estiveram à frente para instalar a UFBA aqui não sabiam de todos esses problemas e dificuldades. Caímos, portanto, num círculo vicioso, na medida em que só poderíamos ter evitado a Prainha se já conhecêssemos como é a política local, mas só conhecemos a política local, obviamente, depois que chegamos aqui. E a vinda da UFBA para cá já estava condicionada por aquilo que havia sido decidido politicamente.

Ainda assim, uma questão se impõe. Vamos supor que a UFBA tivesse condições de funcionar no Colégio Padre Vieira até o momento, e que só a partir de agora devesse ser escolhido ou negociado uma nova área para a necessária expansão do Campus. Os professores que já conhecem suficientemente a vida política barreirense, após analisar possíveis locais, deixariam de escolher a Prainha por antever todas as dificuldades? Evitar atravessar o rio porque a prefeitura se recusaria a construir uma ponte e oferecer acesso seguro seria a resolução mais correta? Se assim agisse, a Universidade não estaria sendo mesquinha e pequena ao aceitar as regras de tal jogo? Ora, o próprio movimento iniciado em 12 de março comprova precisamente o contrário. Caberia aqui, nessa relação entre Universidade e política local, uma sentença de Jean Piaget: “Quando o coelho come alface, é a alface que vira coelho, não o coelho que vira alface”.

Por Márcio Lima

segunda-feira, 29 de março de 2010

"Universidade e Política", por Márcio Lima

Desculpem-me a insistência na questão, mas tenho escrito que o discurso e projeto da criação do estado do Rio São Francisco acaba por encobrir os problemas reais de Barreiras e, provavelmente, de todo Oeste da Bahia. Certamente os grandes problemas da cidade existem por um histórico de administrações ruins, embora se crie o discurso de que o estado baiano é o responsável por eles, na medida em que não investe aqui. Daí a necessidade de criação do novo estado.

A recente manifestação da UFBA desencadeou uma série de reações que evidencia com muita força esse fato. O site ZDA (que, aliás, está fora do ar há vários dias no momento em que escrevo) destacou-se como organizador do debate, uma vez que nele muitas visões sobre o ocorrido foram expostas.

O ex-prefeito Saulo Pedrosa escreveu um texto condenando a atual gestão, fazendo duras críticas ao descaso com que vem sendo tratada a UFBA, bem como ao posicionamento da prefeita durante o acontecimento. A presidenta da câmara de vereadores, Kelly Magalhães, saiu em defesa da atual administração. Em post do dia 17 de março em seu blog, pôs em xeque, em primeiro lugar, os méritos do antigo prefeito na vinda da Universidade Federal para Barreiras. Tal fato deve-se a um projeto do governo federal, do MEC e do governo da Bahia. Saulo Pedrosa, portanto, beneficiou-se de ações dos governos do PT, partido ao qual o seu (PSDB), é bom lembrar, faz oposição. A vereadora lembra também como fora tratada a educação superior pública quando FHC esteve na presidência. Mas a réplica não se restringe a esse argumento, pois as “obras” que o ex-prefeito listou em sua conta, Kelly tratou de lembrar que elas eram, na verdade, programas das esferas mais altas, ou seja, dos governos estadual e federal. Além do mais, Saulo ainda se dera ao luxo de perder 69 milhões destinados ao saneamento básico, verba que ele poderia ter recebido do governo federal, mas da qual Barreiras não se beneficiou devido à questão com a Embasa.

Saindo das diatribes contra Saulo para os encômios à atual prefeita Jusmari, Kelly Magalhães, porém, muda radicalmente o critério de sua análise, pois aquilo que assume um caráter de discurso desmistificador quando avalia a gestão de Saulo é motivo agora de elogios. Assim, Kelly louva as realizações da cidade mãe, quando na verdade são o vovô e o bisavô os responsáveis pelos melhoramentos que ela lista – num post anterior, do dia 07 de janeiro de 2010. Lamentando que o povo tenha memória curta, ela diz que as principais ruas da cidade antes estavam intransitáveis. Além de melhorá-las, a atual gestão deixou a cidade florida, a saúde está a olhos vistos (sic) e há um trabalho para atrair indústrias e fábricas. De tudo isso, só mesmo as flores podem ser vistas, e há mesmo um trabalho exaustivo para molhá-las com caminhão-pipa, e para substituí-las, pois mesmo regando-as, elas não resistem por muito tempo. Quanto às ruas, não sei por onde a vereadora transita, mas não vejo diferença entre o que era e como está. Saindo, então, da avaliação do governo municipal para o estadual, Kelly diz que Wagner muito tem feito pelo Oeste. Todos podem conferir as benesses listadas em seu blog. A meu ver, o mesmo argumento que ela utilizou contra Saulo vale para a atual gestão, ou seja, aquilo que compete ao município vai mal, e o que supostamente tem sido feito vem de cima. O que joga por terra o discurso de que Barreiras e o Oeste são abandonados, pois o problema maior é mesmo com as administrações locais. Afinal de contas, não é isso que a vereadora sustenta quando analisa a gestão Saulo e que se esquece de dizer quando tergiversa sobre a atual?

Ora, basta lembrar que Barreiras tem hoje uma universidade estadual (UNEB), uma federal (UFBA) e um instituto federal (IFBA). Ademais, é possível citar outros órgãos, como EBDA, CODEVASF etc. As cidades que supostamente não são abandonadas pela Bahia certamente gostariam de receber tratamento igual.

Em termos de educação, afora Salvador, apenas Vitória da Conquista está servida com esse mesmo aporte de instituições de ensino público. Vale citar que aquele município é governado pelo PT desde 1997 (já é o quarto governo seguido), portanto, parece natural que no projeto de interiorização da UFBA, seu nome tenha sido o primeiro a ser lembrado. Mas, se pensarmos bem, essa conta talvez não deva ser invocada, pois o tratamento que a UFBA (tanto em termos físico como humano) vem recebendo denota que o município não faz questão de Universidades. Se é educação que os governos estadual e federal querem dar ao Oeste, esqueçam. O que se deseja é um estado novo, com uma profusão de cargos novos a serem preenchidos. Senão vejamos.

O site da UFBA em Vitória da Conquista noticiou a pavimentação do acesso ao campus de lá. Uma parceria do município com o estado para realizar as obras, que custarão em torno de 700 mil reais. Embora seja um valor menor que o necessário para pavimentar o acesso à Prainha, a obra em Vitória da Conquista revela que lá a prefeitura foi buscar junto ao governo estadual recursos. Aqui, ouve-se o tempo todo que não há dinheiro, mas que Wagner prometeu realizar também a obra. Será que nosso executivo foi buscar esse investimento ou está à espera do dinheiro? Quando se olha a foto da rua que será pavimentada em Vitória da Conquista, mesmo sendo de terra, nota-se que ela é muito mais transitável do que as principais ruas de Barreiras. Já nem é possível comparar com a rua lateral que conduz à entrada principal do Padre Vieira, que é uma das ruas mais podres do centro. Invocar o trajeto para chegar à Prainha seria insanidade.

Mas em meio a todas as questões que a manifestação da UFBA provocou, bem como às mazelas que fez vir à tona, a prefeita Jusmari bradou que o problema foi terem construído a Universidade do outro lado do rio. Além disso, disse que ela era a prefeita mais democrática que esta cidade já teve, pois embora seja evangélica, realizou o maior carnaval de Barreiras. E não achando pouca a confusão entre religião e política, disparou que sua meta é converter 90% por cento da população à sua religião. Parece até fala daqueles personagens políticos de Chico Anísio ou da antiga série O Bem Amado.

Seria cômico, se não fosse trágico.

Por Márcio Lima

terça-feira, 16 de março de 2010

"O mito da terra prometida – Parte III", por Márcio Lima

A região que hoje é o Oeste da Bahia pertencia, no período colonial, à capitania de Pernambuco. Devido a duas tentativas de separação da região de Pernambuco a fim de formar um país independente, o Oeste foi anexado, por ordens reais, primeiro a Minas e depois à Bahia. A anexação definitiva, por decreto de D. Pedro I, é de 15 de outubro de 1827. Haveria, portanto, razões históricas que justificariam o desmembramento destas terras para criar um novo estado. Todavia, conforme escreve Ignez Pitta em seu livro Barreiras, uma história de sucesso, “Consta que, entre os anos 1540 e 1550 Duarte Coelho mandou construir barcos acima da cachoeira de Paulo Afonso, a fim de poder subir o curso do Rio São Francisco, realizando a expedição, em que conheceu e ultrapassou Bom Jesus da Lapa. Os fortes ataques dos índios, porém, residentes às margens do Opara, como chamavam o São Francisco, impediram que Pernambuco pudesse colonizar a região, que era mais próxima da Bahia e foi sendo povoada por baianos. A própria Bahia tem 51% do seu território situado no polígono das secas e por isso os pioneiros iam entrando cada vez mais longe, à procura de terras para plantar e criar gados” (p. 18).

A natureza do argumento é bem clara. Desde muito cedo, embora pertencendo à capitania de Pernambuco, a região Oeste foi povoada por baianos. Por si só, isso, obviamente, não desmerece a reivindicação do desmembramento. O que tal fato mitiga é a crença numa formação histórica da região como se fosse estranha à Bahia, como se o estado tivesse visto cair em seu colo uma região que não lhe pertencia. Tal apelo nos faz às vezes pensar que existia uma região rica, pujante, sólida, que foi retirada de Pernambuco como represália e dada à Bahia. Conferindo de perto os eventos, é possível notar que no século XVI o Oeste estava sendo povoado por baianos. Em 1827 a região foi anexada à Bahia e, para ficar no caso mais paradigmático, Barreiras, sua cidade principal, surgiu quando a região pertencia aos baianos.

Na verdade, não acredito que esse apelo histórico tenha muita relevância para os argumentos (há algum?) que justifiquem a criação do estado do Rio São Francisco. Ele reveste-se, porém, dos mesmos sofismas de outras reivindicações. Basta analisar o tipo de relação que o Oeste mantém com o poder central em Salvador para comprovar isso. Em sua história política e social, o lado à margem esquerda do São Francisco constituiu-se como parte integrante da Bahia; querer justificar as mazelas da região como sendo fruto do descaso do estado é um discurso que serve bem a interesses particulares – mesmo que a muitas particularidades – e não a um projeto coletivo que vise à grandeza política, econômica e cultural da região. Querem ver? Quando emanciparam Mimoso do Oeste, qual nome puseram na nova cidade? A região que quer livrar-se da Bahia retirou o nome que fazia referência a sua vegetação para homenagear a família mais influente do estado por mais de cinquenta anos. E a toponímica da própria Barreiras também é um exemplo disso, com sua Praça Castro Alves, Avenida ACM, Cleriston Andrade e assim por diante. Como contou Ignez Pitta em palestra recente na UFBA, quando quiseram homenagear Geraldo Rocha, ele pediu que a homenagem fosse para seu pai, Antônio Geraldo, cujo nome foi dado a uma importante escola pública de Barreiras. Depois disso, qual homenagem prestaram a Geraldo Rocha? Será que os nomes antes citados são mais importantes para a região que o dele?

Poderão objetar-me que a articulação que resultou na emancipação de Mimoso não representa o Oeste, mas apenas um setor dele. De minha parte, não vejo muita diferença. Mais uma vez, vão se acumulando exemplos que demonstram a forma com que o Oeste se posiciona diante da Bahia, realçando as falácias que envolvem o discurso “criacionista”. O caso de LEM é sintomático porque reflete o fisiologismo com que é conduzida a política nessas paragens, um exemplo do que há de mais retrógrado no Brasil. Até onde sei, o crescimento de Barreiras na primeira metade do século XX está assentada, antes de tudo, no empreendedorismo da região, levado a frente por nomes como o do já mencionado Geraldo Rocha. A história da cidade está imiscuída na história da Bahia, sendo que um barreirense chegou a Governador do estado: Antônio Balbino.

Sobre isso, aliás, Luiz Pamplona relata fatos interessantes em seu livro, Barreiras, Bê-A,...da BARRA pra cá (Cf. p. 173-175). Quando, em 1954, Antônio Balbino tornou-se governador, não fez a maioria na Assembléia, tendo a oposição um deputado a mais. Por alguma razão, o distrito de Brejo Velho, hoje Brejolândia, teve as urnas canceladas, marcando-se novas eleições. Um certo ACM, filho de Magalhães Neto, amigo de Balbino, havia concorrido ao Legislativo e perdido, ficando 300 votos atrás do último colocado eleito. Apesar de ACM ser da UDN, partido de oposição ao seu, Balbino fez arranjos a fim de eleger ACM, atraindo, numa manobra política, a simpatia dos adversários. Vê-se que o jovem ACM iniciou sua vida pública elegendo-se por conta de urnas canceladas e novas eleições marcadas, e por adesão a adversário, cuja interferência viabilizou seu ingresso na Assembléia Legislativa. Pamplona relata ainda que ele pagou depois esse favor a Balbino, intercedendo, depois do golpe de 1964, junto ao presidente Castelo Branco, para que o ex-governador da Bahia não fosse cassado. Tal episódio reforça a relação entre os homens públicos do Oeste e os da Bahia. Gostaria de saber de que modo essa relação se constituiu desde o tempo da ditadura. Será que depois da dupla Balbino/ACM, os homens de Barreiras e do Oeste que conduziram a vida pública mantiveram uma relação crítica e de afastamento do poder central em Salvador? A criação do Estado do São Francisco é uma reivindicação sustentada por um histórico de lutas e oposição locais à Bahia? Ou, antes, o episódio de 1954 é apenas o marco de uma história contínua? Talvez isso explique por que, em vez de referir-se à vegetação regional, a cidade-símbolo do novo Oeste homenagear aliados históricos.

Por Márcio Lima

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

"O mito da terra prometida – Parte II", por Márcio Lima

Essa questão da criação do estado do Rio São Francisco é extremamente complicada. As variantes são muitas, tantos interesses em jogo. E ela se torna ainda mais delicada porque contrasta com a complexidade da criação a simplicidade do desejo de todos, que é um só: que o Oeste deixe de integrar a Bahia. Fiquei surpreso quando, há poucos dias, peguei um exemplar do Jornal do São Francisco e li a notícia sobre o falecimento de Marlan Rocha. O que posso dizer sobre ele é que é o autor do projeto do estado do Rio São Francisco e criador da Fundação Geraldo Rocha. A título de esclarecimento, até onde sei, Marlan é o mentor do projeto, embora este tenha sido apresentado pelo deputado Gonzaga Patriota, pois só um representante eleito do povo tem poder para tanto. Meu contato com ele resumiu-se a uma conversa que tivemos numa tarde, no comitê de criação do novo estado. À época, recém-chegado a Barreiras, eu desenvolvia um pequeno projeto de pesquisa sobre a história da cidade. Por isso, acabei procurando-o. Na verdade, embora tenhamos conversado bastante, o assunto quase não girou em torno do projeto do novo Estado. Guardo daquela conversa as citações eruditas e condensadas que ele fazia e iam dando o tom da conversa – num bate-papo informal e à tarde só pode ser assim: Políbio, o grande historiador grego. Espinosa, o autor da Ética. E o convite que ele me fez para ouvir a Missa em si menor de Bach, em vinil. Marlan me presenteou e à Universidade com alguns exemplares do livro de Geraldo Rocha, Rio São Francisco, fator precípuo da existência do Brasil, que ele re-editou. Eu pedi que ele fosse à UFBA fazer uma palestra, apresentar a proposta de criação do novo estado. Infelizmente, nosso encontro resumiu-se àquela tarde. Por falta de conhecimento específico de historiador e de muitas outras questões, minha pesquisa formal não foi para frente. A palestra de Marlan também não aconteceu.

Recomendo a matéria sobre Marlan publicada na edição 64, ano IV, do jornal do São Francisco, escrita por Fernando Machado, que também tem uma página dedicada a Barreiras (www.zda.com.br). Lendo a matéria, só pude reforçar a idéia que tive quando do meu encontro com Marlan: o estado do Rio São Francisco, se se tornar uma realidade, provavelmente não será o lugar pelo qual ele lutou. Por isso, destaco um argumento importante escrito por Fernando Machado. Segundo ele, Marlan sempre foi independente politicamente, nunca se aliando aos donos do poder, numa região em que “não agradar ou criticar publicamente um político é motivo para todos os infortúnios, até o desaparecimento físico”. Daí a questão que fica é: o que Marlan achava da criação de um estado, cujo projeto de fato era seu, mas que seria governado e administrado por Deus sabe quem? O problema, portanto, da criação do estado do Rio São Francisco é saber o que ele é na verdade, a quem ele irá de fato beneficiar. Como disse antes, é contrastante essa questão da criação com a simplicidade do argumento que a motiva: a Bahia não olha por nós. Assim, a barafunda que dá sustentação ao projeto é facilmente soterrada pelo apoio de todos, que vêem no novo estado a oportunidade de finalmente emanar, da terra prometida, leite e mel. A impressão que tenho é que Marlan se sentia um continuador da tradição de homens que remonta ao início do século XX, e que fizeram a história de Barreiras e do Oeste, quando a opulência possivelmente não discrepava do caos social e urbano. No entanto, essa história a que ele talvez quisesse dar continuidade – ou antes, reatar o fio partido – já foi quase que completamente destruída, justamente por quem está à espera do novo ente da federação, o Rio São Francisco. Pobre santo, jamais o deixarão em paz.
Por Márcio Lima

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

“O mito da terra prometida”, por Márcio Lima

Há um projeto de lei do deputado pernambucano Gonzaga Patriota que propõe a criação do estado do Rio São Francisco por separação da Bahia. Em seu trâmite, o projeto mostrou-se inconstitucional em dois momentos. No primeiro, propunha que os gastos com o plebiscito popular seriam de responsabilidade da Bahia. No entanto, a criação de um novo estado é uma decisão de esfera federal, portanto, não cabia a um estado da federação arcar com esse custo. A segunda, mais grave, previa a consulta apenas no Oeste baiano, parte que justamente reclama o desmembramento. Ora, a Bahia perderia parte de seu território, mas a população do estado como um todo não poderia opinar quanto a isso. É bom lembrar que essa proposta seguiria o mesmo caminho que conduziu à criação de Luís Eduardo Magalhães, que foi criado sem que a população de Barreiras tivesse opinado. Por conta disso, LEM correu o risco de voltar a ser distrito barreirense. Barreiras, corretamente, denunciou a operação e exigia de volta o que lhe era constitucionalmente de direito. No entanto, ela pretende ser a capital de um novo estado cujo trâmite seria o mesmo, e que possivelmente seria endossado pelas pessoas que estão à frente do projeto. Sei que essas inconsistências foram resolvidas, mas elas dizem algo sobre o processo em si. Afinal, não é mera coincidência que os trâmites para a criação do estado do Rio São Francisco quisessem seguir o mesmo caminho que criou LEM.

Não quero entrar no mérito da importância da criação do novo estado, se ele vai de fato resolver os problemas da região, se vai melhorar a vida das pessoas e assim por diante. Gostaria, no entanto, de começar algumas reflexões que tentam lançar luz sobre questões políticas que, inevitavelmente, são indissociáveis dos problemas e do discurso de criação do novo estado. Como a questão exige uma reflexão longa, pretendo abordá-la em mais de um post a fim de não escrever textos demasiado longos para o blog.

Há argumentos históricos que supostamente justificam a criação do estado. Voltarei a eles depois; por ora, queria me deter nos motivos que têm mais apelo, sobretudo junto à população. A região oeste é rica, tem um dos municípios que mais crescem no Brasil (LEM), tem uma grande produção levada a frente pelo agronegócio. Enfim, há bases econômicas para realçar a importância da região. Em contraste com isso – não precisa dizer muito –, basta apenas andar nas ruas de Barreias, a principal cidade da região, para ver a discrepância entre as condições reais e a bonança econômica. A culpa dessa “contradição” está no descaso com que a “Bahia” trata a região. Assim, a criação de um novo estado permitiria, enfim, tirar a região do atraso social para atingir as mesmas condições do progresso econômico experimentado por uma parcela.

Como disse antes, não quero discutir essa equação. Meu interesse é questionar por que há problemas gritantes mesmo que as soluções para eles se restringem à esfera municipal. Ou, o que é ainda pior, suas causas são todas locais, e talvez nem a criação de um estado possa resolvê-los. O traçado urbano de Barreiras é um exemplo perfeito disso. Praticamente só é possível se movimentar na cidade pela rodovia BR-242, que corta a cidade ao meio. Dificilmente se vai de um local a outro sem precisar cruzá-la ou mesmo seguir nela. Mas uma coisa que sempre me chamou a atenção é o Bairro Sandra Regina. Deve haver alguma explicação para seu traçado. Uma explicação, porém, não significa uma justificativa. Para quem não conhece, é praticamente impossível, nas ruas paralelas à rodovia, seguir uma rua por duas quadras. Quase todas se limitam a apenas um quarteirão, de modo que se alguém segue da altura da Royal Pneus, por exemplo, em direção à feira, esse alguém vai sentir-se numa espécie de labirinto. Entra-se numa rua, que termina na primeira que a cruza, a qual é preciso seguir à direita ou à esquerda (normalmente é um ziguezague) para depois dobrar à esquerda ou à direita novamente, que também se estenderá por uma quadra, morrendo na primeira que lhe é transversal. Se você, que não conhece, não entendeu nada, recomendo fazer o percurso: é uma verdadeira loucura com método. Por isso, não sei se nesse caso as leis formais do pensamento, expressas na linguagem, dão conta de descrever a realidade.


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Passemos a um outro caso que diz respeito também às ruas. Uma cidade que se julga capaz de transformar-se numa capital a qualquer hora não tem – Óh horror – uma definição dos CEPs de suas ruas (são poucas as que têm). E, o que ainda é mais grave, muitas ruas não têm nome. Não posso deixar de lembrar: quem tenha desejado comprar um imóvel sabe da raridade que é encontrar documentação. Assim, saio de Sandra Regina e sigo para a Morada Nobre (se menciono esses dois bairros é porque melhor os conheço). Ali, a maioria das ruas ainda tem a denominação dos lotes, embora muitas delas estejam repletas de “mansões”. O que têm feito os vereadores e o poder público que não nomearam essas ruas, tampouco lhes deram CEP? Qualquer pessoa sabe a dor de cabeça que significa correr atrás de contas que não chegam e de documentos importantes que atrasam. Pergunto: qual a culpa do estado da Bahia nisso? Se você, portanto, quiser comprar um imóvel na morada nobre, prepare-se para encontrar lotes e casas sem documentação, ruas sem nome e sem CEP. Ora, quem vai pensar em nomear ruas e dar a elas CEP quando se tem questões mais importantes, como criar um estado novo?
Por Márcio Lima