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quinta-feira, 14 de julho de 2011

"Nobre Parlamentar", por Wagner Teles

Talvez seja inadequado o título, afinal não é bem sob o regime de parlamento que funciona o que nos habituamos a denominar de Câmara Parlamentar. Diz-se que, por arrogância característica da classe política, os deputados batizam os seus pares com o nome de parlamentar. Como a linguagem é o que nos define, seja por arrogância ou não, a verdade é que os indivíduos que representam o povo da Bahia na assembléia legislativa tanto merecem o título que não se trata de um elogio tratá-los como parlamentares, mas antes a palavra “parlamentar” é que tem a sua dignidade elevada ao ser empregada para um fim tão nobre. Se as coisas se passam assim com os parlamentares da triste e dessemelhante Bahia, o que dizer da parcela parlamentar mais competente do estado, aquela que representa o povo do Oeste? Louvores, louvores, louvores. É pelo nome de vossa diligência que eles atendem.

A título de ilustração, todos sabem que o Instituto de Ciências Ambientais e Desenvolvimento Sustentável da UFBA, há pouco tempo, ficou cerca de três meses em greve em virtude das precárias condições de acesso aos seus novos prédios. Meses com as atividades de ensino paralisadas, professores, alunos e técnicos engajados em torno de uma causa comum, manifestações nas ruas da cidade; várias assembléias, diversas reuniões com a Prefeitura Municipal de Barreiras, audiências com o Governo do Estado, com a Reitoria da UFBA, com a Presidência da Assembléia Legislativa do Estado. Por fim, tantas e tão variadas ações para simplesmente dar com os burros n’água...

Como “a união faz a força, mas nem por isso se deve por tanta água no leite”, as aulas voltaram ao normal. Porém, há algumas semanas, para surpresa de todos, publicou-se que a ordem de serviço para execução do acesso ao campus seria imediatamente expedida pelo Estado por força da intervenção de uma jovem parlamentar. Preservemos a identidade da notável parlamentar, ao tempo que nos resguardamos da acusação de apologia partidária, batizando-a com um codinome qualquer – Kelly.

Ora bem, noticiou-se que a tal Kelly conseguira num átimo, com algumas poucas palavras, aquilo que uma unidade universitária não havia conseguido em meses de desmesurado esforço. “No mais tardar, na próxima semana, os trabalhadores estarão no local a executar a obra”, vaticinara a nobre parlamentar. Houve quem caísse em prantos com a notícia que parecia não passar de mais um sinal dos tempos.

“Descompostura!” Bradavam alguns por ignorar que “Deus só dá os dentes a quem não tem nozes.” “Oportunista!” Acusavam-na injustamente outros tantos. Que mal há em resolver um problema, com uma fotografia ao lado de autoridades do Governo, para o qual meses de militância política não foram capazes de sequer reivindicar claramente a solução? Não compreendo a indignação e revolta, afinal não era asfalto o que queriam? Faça-se o asfalto, disse a parlamentar, e o asfalto fez-se. E que culpa tem a parlamentar se professores, alunos e técnicos de uma Universidade ignoram completamente a lição mais elementar em matéria de política? Tudo pode ser resolvido com uma fotografia.

Todo sábio político sabe que para ser bom político, antes de tudo, é necessário ter coragem para dizer a verdade e jamais transigir. E sabe também que “palavra demais só custa dinheiro em telegrama.” Afinal, o que diria um político diante de um eleitorado sedento de verdade? A mentira? Não resta dúvida de que o eleitorado em pleno acesso de cólera e justa indignação lhe deporia de sua função a pedrada. E por mais que o bom profissional em política tivesse elaborado habilmente a sua mentira, por mais cuidadosamente que a tivesse ensaiado, o menos inteligente dos eleitores lhe flagraria mentindo. Assim, desacreditado e desmoralizado, o pobre diabo abandonaria a carreira política e talvez, com a ajuda dos astros, conseguisse um emprego qualquer.

Dizem ainda, os mais céticos, que fora feito o asfaltamento, mas falta a ponte. É que eles, por terem pouca fé, não crêem ser verdade o que me contou um amigo. Ele suspeita que a tal parlamentar seja capaz de, uma vez posta abaixo a ponte de madeira, reerguer uma de cimento, ferro e brita em três dias.

Quanto a mim, suspeito que esse feito não passaria de algo a realizar-se ordinariamente nas mãos de uma política tão esmerada em servir aos seus eleitores que segue à risca o lema “do povo, pelo povo, para o povo”. Quanto ao dístico “Mateus, primeiro os teus”, isto é coisa de mau político, coisa rara em nosso vasto estado. Ademais, não se trata de uma parlamentar, mas de um parlamento inteiro, essa tal jovem.

Infelizmente, somente depois de ter enviado este texto para publicação, fui informado por fontes confiáveis que a estrada continua sem asfaltamento e a ponte pior do que antes. Que seja verdade, que nada de ponte e nada de asfalto, mas é verdade também que, como diria o Barão, “quem passou o inverno nu, passa o verão que é mais quente”.

por Wagner Teles

terça-feira, 29 de março de 2011

"Em Brasília, dezenove horas", por Márcio Lima

Na semana passada, viria a Barreiras uma comissão da UFBA de Salvador para dar andamento ao processo de implantação do curso de medicina no ICADS. A visita, no entanto, acabou não acontecendo. Mas o fato é que isso se tornou notícia e movimentou o noticiário local. O evento é bem ilustrativo do funcionamento da política do Oeste Baiano.

O jornal Nova Fronteira, por exemplo, noticiou que o deputado federal Oziel Oliveira (PDT-BA), em encontro com o ministro da saúde Alexandre Padilha, engrossou o coro para que o curso venha. E assim foi durante os dias seguintes, com a classe política assanhada, todos querendo dar sua contribuição. Se de fato vir a existir um curso de medicina no ICADS, obviamente que todos vão querer colher os frutos, reivindicando seu quinhão de contribuição. Já sabemos à exaustão como isso funciona. O mais curioso é que dos vários nomes mencionados, não vi o nome do diretor da Faculdade de Medicina, José Tavares Neto, que é o verdadeiro autor e defensor primeiro do projeto. Seu piparote inicial, como diria Machado de Assis, é o responsável por colocar em marcha todo o andamento das negociações ora em curso.

Nem mesmo o ICADS, que sempre é responsável por sugerir a criação de seus cursos, tem mérito na proposta, pelo menos até o momento. Ouso dizer que se o curso vier, será um presente que nos foi dado, que nos cai no colo, como se diz por aí. No entanto, os políticos já se articularam para colher os frutos do trabalho alheio. Conhecemos a expressividade de nossos políticos locais para saber que eles têm um peso quase nulo na hora de influenciar qualquer decisão superior.

Mais uma vez, estamos diante do que há mais atrasado na política do Brasil, atraso que se sedimentou de tal forma por essas bandas que nem um abalo sísmico parece capaz de afetar. Quando o deputado Oziel Oliveira planta na imprensa a notícia de que pediu ao ministro da saúde para implantar o curso de medicina em sua região de atuação, ele nada mais está fazendo do que a política da voz do Brasil. Em tempos de internet, a tirania do famoso noticiário político oficial é bastante reduzida. Antes, quem dependia das rádios para ouvir música se aborrecia quando, às dezenove horas, tocava a abertura da ópera O Guarani de Carlos Gomes e uma voz anunciava a hora na capital federal. Era o momento de desligar o aparelho.

Mas é um erro acreditar que ninguém ouvia a voz do Brasil. Nos rincões do gigante adormecido, ela funcionava muito bem, e era um dos principais canais de comunicação dos parlamentares com sua base eleitoral. Nesse aspecto, quando o locutor anunciava que fulano de tal pronunciou um discurso em favor da criação de um açude em sua região, seu eleitor, do outro lado, acreditava que seu representante o estava representando.

Se a internet nos deu autonomia para escutarmos música como quisermos sem ter de ouvir a abertura de Carlos Gomes, por outro lado ela tornou-se o meio pelo qual os políticos geram notícias para dar a impressão de que estão trabalhando. No inconsciente coletivo de muitos (para dizer o mínimo) dos que leram a notícia, já está plantada a ideia de que Oziel Oliveira contribuiu – se não pensarem outra coisa – para que houvesse um curso gratuito de medicina em Barreiras. Depois do curso implantado, é só completar o trabalho e colher os resultados, dentre os quais uma solene homenagem da primeira turma de formandos.

Por Márcio Lima

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

"A Índia Surda que Dançava", por Poty Lucena

O desfile das tribos de índios durante o carnaval, regido ao som agudo da gaita (uma espécie de flauta de metal), ritmado pela batida de tambores, triângulo, tudo isso compassado pelo estalo de um arco e flecha de madeira, faz parte de uma tradição de quase de 100 anos em João Pessoa/PB e é responsável até hoje pela afirmação da influência da cultura indígena na formação da identidade do povo nordestino, especialmente o da Paraíba.

E foi num desfile carnavalesco das tribos indígenas na década de 70 que um militar, um homem branco, gordo e alto, tenente músico do exército, notou algo interessante e surpreendente com uma componente da agremiação que era surda, muda e dançava o passo marcado acompanhando toda a tribo com sincronia de invejar campeã de nado sincronizado. Após a apresentação o tenente curioso e teimoso, em uma linguagem de sinais rudimentar, quis saber como a índia conseguia “escutar” a música. Com o dedo indicador, e um sorriso de surpresa, a índia apontou para a barriga e explicou para o tenente de onde vinha a sensação do som. Ali começava a saga de um dos maiores folcloristas do Brasil, que montou uma banda de surdos e mudos (isso mesmo!) com metodologia própria a partir de um trabalho voluntário de educação para deficientes, na época uma grande novidade que ganhou as manchetes dos jornais e revistas nacionais.

Resgato este exemplo para falar do tamanho do desafio que hoje nós da Universidade Federal da Bahia, enfrentamos para prover de educação pública de excelência aos muitos que nunca tiveram direito a uma educação pública de qualidade. É caso comum a origem humilde dos nossos estudantes que chegam trazendo na bagagem, além da saudade e o orgulho dos pais, a história de descaso com a educação pública fundamental e média e o desabafo da injustiça disfarçada de revolta. Revolta que em poucos instantes se transforma em um sorriso de vitória ao se darem conta que venceram e que conseguiram chegar à Universidade. A medida do sucesso do professor é do tamanho do sucesso do estudante. E a transformação dos estudantes alijados de boa parte de sua formação básica em profissionais disputados e lideranças é a sensação mais gratificante da vida de um professor.

Após 04 anos de Oeste da Bahia e da construção do Instituto de Ciências Ambientais e Desenvolvimento Sustentável da UFBA em Barreiras consigo entender que a teimosia e a curiosidade do Tenente Lucena, meu avô, é a fórmula que alimenta a nossa sensação de vitória que, por sua vez, é do tamanho do desafio que todos nós enfrentamos nestes 04 anos. Nesta curta história, fizemos história e travamos batalhas, literalmente, para desfazer a injustiça e o descaso público que persiste, para garantir o respeito ao bem mais precioso do ser humano, o conhecimento.

*Para conhecer e assistir um pouco das tribos indígenas do carnaval tradição da Paraíba acessem este link.

Por Poty R. de Lucena

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

"Do Útil e do Honesto", por Márcio Lima

Gosto muitíssimo da seguinte passagem do filósofo francês Michel de Montaigne: “Todos estão sujeitos a dizer tolices; o mal está em as enunciar com pretensão: ‘Este homem provavelmente vai expor-nos, com ênfase, algumas enormidades (Terêncio)’. Este segundo ponto não me diz respeito, porque não dou maior atenção às bobagens que me escapam. Felizmente para elas, pois as negaria imediatamente se devessem prejudicar-me, ainda que mui ligeiramente. Nada compro ou vendo por preço mais alto do que vale. Escrevo como falo ao primeiro indivíduo que encontro, contentando-me com dizer a verdade” (MONTAIGNE, Michel. Ensaios. “Do útil e do honesto” Tradução de Sérgio Milliet. Col. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1972).

Lembrei-me dela depois de ler as “enormidades” que foram expostas na última edição do Jornal do Estado do São Francisco (Ano I – Edição n. 4, de 25 de setembro de 2010, distribuído junto ao Jornal do São Francisco, Ano V, n. 81). Refiro-me especificamente ao editorial e à apropriação feita de nosso blog. Antes de falar daquele, comento esta. Em tempos de guerra contra a concepção autoral, desconheço as regras para que os meios de comunicação apropriar-se de ideias alheias. Mas o caso é que o Jornal reproduziu um texto meu sem pedir nenhuma permissão. Até aí, tudo bem. O problema é que o periódico não apenas escondeu a fonte, como dá a entender para os leitores que se tratam de reflexões oriundas de um espaço ligado ao Jornal. Está lá estampado no início do texto: “Do Blog”. De qual blog? Assim, o leitor é induzido a pensar que se trata do blog do jornal. Não satisfeito, os comentários deixados no oestemaquia ao longo de seus posts são pescados e lá expostos. Qual a intenção do Jornal em não revelar a fonte de onde ele está tirando o texto? E, mais irônico ainda, as minhas palavras que eles reproduzem contêm justamente uma citação do Jornal do Francisco, que, quando escritas, indicavam a fonte para quem quisesse consultar na íntegra.

Quanto ao editorial, nem sei se posso chamá-lo assim, uma vez que está assinado. Até onde sei, o editorial expressa a opinião do jornal, e não a de um ou outro jornalista particular de seu quadro. Não obstante isso, o texto trata da famigerada criação do Estado do Rio São Francisco. Poucos dias antes, o jornalista João Alfredo participou de um debate sobre o tema, promovido pelos estudantes dos Bacharelados Interdisciplinares da UFBA. E é contra a reflexão de alguns professores – dentre os quais eu – que o Jornal se posiciona em seu editorial. Fato perfeitamente compreensível. São as regras do jogo democrático. Por que as regras do jogo democrático sempre precisam ser lembradas “neste país”? O primeiro ato inconcebível é o nome do professor citado. Eu, Márcio Lima, e Márcio Carvalho temos escrito no blog; ele, além disso, tem participado dos debates sobre a santificação da terra. No entanto, o jornal, referindo-se aos professores da UFBA, menciona um certo Márcio Pinto. Todos os textos escritos e ideias são apresentadas em público, como não poderia ser diferente para quem está num ambiente acadêmico, e se amparam em argumentos, dados, fontes etc. O jornal, no entanto, pretende rebater sem argumento algum. Se o espaço do jornal não é propício à exposição mais rigorosa de ideias, a falta completa delas é um agravante sério. Mas, pior que isso são as afirmações capciosas do editorial para justificar porque, supostamente, somos contra os milagres que São Francisco está disposto a fazer pelo Oeste baiano. Antes de tudo, porque somos forasteiros. Demonstrando o quanto esse forasteiro está imerso nos problemas locais, há pouco tempo aqui, Márcio Carvalho, por exemplo,tem dados sobre a região que os devotos desconhecem, ou fingem desconhecer. Na verdade, milagre não anda bem mesmo com a realidade. Afinal, só é possível esperar pelo milagre se ao mesmo tempo esperar que as leis do real sejam modificadas.

Mas o melhor está por vir. No fim do texto, ficamos sabendo que somos contrários ao novo Estado porque somos aliados do velho carlismo e de seus representantes na região, a saber: Jusmari e Oziel. Aqui, todas as regras do decoro podem ser procuradas no esgoto a céu aberto de Barreiras, pois provavelmente foram jogadas lá. Entende-se também por que o jornal não quis mencionar o endereço do blog. Qualquer um que lesse os textos poderia constatar de imediato a impostura da afirmação. Além do mais, a prefeita e seu marido engrossam o coro dos favoráveis à criação. Se ela está aliada ao governador da Bahia, que é contra, é por mero oportunismo político. Oportunismo, aliás, que está na essência da motivação da maioria que aí está para defender a ideia de criação do Estado. Do ponto de vista político, essa foi a principal hipótese levantada pelo Blog, ou seja, de que a criação do estado serve, em primeiro lugar, para um oportunismo político, e depois para justificar décadas de incompetência administrativa das cidades da região por seus políticos locais. Todavia, o que era hipótese já teve sua primeira comprovação, dessa vez não por parte dos políticos, mas do Jornal do Estado do São Francisco, que de modo oportunista tenta conquistar a simpatia de seus leitores, tentando fazer dos professores os novos vilões da história. Para isso, esconde fonte e distorce ideias.

Se é útil esconder a verdade em prol de uma causa, ainda prefiro estar na companhia de Montaigne. E para que a utilidade não se sobreponha à honestidade, é preciso que a verdade seja dita.

Por Márcio Lima

sexta-feira, 30 de julho de 2010

"Impressões Alheias", por Márcio Lima

Desde o início de junho, a UFBA passa por mais uma temporada de concursos. Logo Barreiras receberá uma nova safra de aproximadamente vinte docentes. Na última semana, tivemos, dentre outras bancas, uma destinada à Língua Francesa. Montar banca de concursos é uma verdadeira epopeia. A primeira dificuldade é encontrar professores que aceitam compor a banca, e por diversas razões. A seguir, vêm as negociações em torno de uma data comum. Finalmente, correr contra o tempo para comprar passagens de avião. Todas essas questões não raro interferem no planejamento das atividades da Universidade. Como estamos em ano eleitoral, nomeações de concurso público só podiam ser feitas até o final de junho. E, para tanto, só podiam ser nomeados os aprovados em concursos realizados até a segunda semana daquele mês. Dada a urgência de um (a) professor (a) de francês, o concurso deveria ter sido realizado na primeira semana. Como isso não foi possível, a seleção só pôde ser realizada na semana passada. Resultado final: os alunos ficarão um semestre sem aulas de francês.

Compuseram a comissão avaliadora a professora Denise Lavallé da UNEB, Marcel Lavallé, canadense e professor aposentado da Université du Québec à Montréal, além de Dominique Boxus, belga radicado no Brasil e que leciona na Universidade Federal de Sergipe. Quando fiz contato com a professora Denise, a primeira resposta dela foi a tradução mais genuína de sua pessoa, ou seja, da pura simpatia. Mas, além de sinalizar positivamente, ela escreveu-me contando que seu marido havia gostado muito da ideia, sobretudo porque queria conhecer alguns sítios arqueológicos da região. Infelizmente, por conta do aperto das datas, não conseguimos articular um período que permitisse fazer o passeio. Acertamos que todo o processo seletivo seria feito num tempo corrido. Até a realização de fato do concurso, a vinda deles teria como único motivo a seleção pública.

Contudo, se o cronograma parecia não abrir espaço para o passeio, a realidade revelou-se outra. Encontramos, assim, uma manhã para irmos a São Desidério atender ao desejo do professor Marcel. Embora sem a possibilidade do olhar paciente como exige os lugares visitados, tivemos a oportunidade de ver uma pequena série de pinturas rupestres, bem como visitar o Parque Municipal de São Desidério, onde está a sublime Lagoa Azul e a gruta do Catão, clássica no nome, mas barroca nas formas. Desnecessário dizer que todos apreciaram muitíssimo o passeio, muito bem ciceroneado por Juci, guia e proprietário da Rupestre Turismo e, quiçá, futuro estudante do curso de história da UFBA. Espero tê-lo convencido disso. É sempre instigante ver pessoas movidas por um pathos ao conhecimento, integrado plenamente àquilo a que se dedica, sobretudo quando vemos a universidade muitas vezes tomada por um pragmatismo chão que se expressa pela busca tresloucada pelo “diploma”.

No mesmo dia da visita a São Desidério, convidei-os para jantar. Os professores Marcel e Denise, porém, declinaram do convite. Queriam descansar para a viagem do dia seguinte após uma longa jornada de trabalho associada ao passeio, que, sem dúvida, exigiu muito mais esforço físico do que a avaliação do concurso. Por isso, levei apenas Dominique para conhecer a noite barreirense. Primeiro experimentamos o Dom Quixope, cuja altura da música, que impedia qualquer possibilidade de conversa, nos obrigou a “bater em retirada”. Fomos ao Trapiche. Por ser uma quinta, a tranquilidade do lugar nesse dia nos permitiu, enfim, conversar bastante. Numa situação como essa, é inevitável falar da história de Barreiras. E, quando lá fechou, esticamos ainda um pouco no Lavoisier. No dia seguinte, Dominique contava aos outros dois professores suas peripécias, elogiando bastante os bares por que passou. Esses seus comentários foram apenas uma variação do que ele me dissera e o que me motivou a escrever este e outros textos porvir: “vou levar daqui uma impressão muito boa”.

Volto ainda a essas questões.

Por Márcio Lima

sexta-feira, 28 de maio de 2010

"Estado do São Francisco: uma abordagem Político-Econômica", por Márcio Carvalho

Nesta última terça-feira, dia 25 de maio, participei de uma mesa-redonda intitulada "A criação do estado do São Francisco: vínculos históricos e interpretações". Participaram comigo a Professora Ignez Pitta e o senhor João Alfredo dos Santos, do Jornal do São Francisco; a mesa foi mediada pelo Prof. Paulo Baqueiro (o da UFBA).

Publico, logo abaixo, minha apresentação naquela oportunidade: "Estado do Rio São Francisco: uma abordagem Político-Econômica". Mas gostaria de fazer as mesmas ressalvas que fiz durante a apresentação.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que há outras dimensões a serem analisadas além da política e da economia quando pensamos na emancipação de uma região: são de fundamental importância as dimensões identitárias, geográficas e históricas. Mas, nesta apresentação, analiso apenas uma parte (a questão de arrecadação e repasse de recursos) da política-econômica do estado.

Além disso, o foco da apresentação foi analisar a afirmação, tão ouvida pelo povo da região, que o oeste baiano é abandonado, esquecido pelo Governo do estado (e, em menor medida, pelo Governo Federal). Para tanto, fiz um levantamento da arrecadação de tributos estaduais pelos 35 Municípios da região, e comparei com os repasses do Governo do estado aos Municípios. Compilei também os repasses na União aos Municípios daqui. Os resultados são, para dizer o mínimo, interessantes, nos fazendo pensar que o problema real é a gestão de recursos, e nem tanto sua quantidade.

Os dados são de 2009; por uma questão de espaço, coloquei na tela apenas os valores relativos aos municípios de maior arrecadação, mas os totais apresentados sempre levam em conta os valores dos 35 municípios do que seria o Estado do São Francisco.

Finalmente, gostaria de agradecer ao Colegiado do Curso de Geografia pelo convite: este tipo de evento tem que ocorrer com maior frequência, para qualificarmos cada vez mais o debate.

Estado Do Sao Francisco

Por Márcio Carvalho

quinta-feira, 29 de abril de 2010

"O Coelho e a Alface", por Márcio Lima

Em meus textos sobre as questões, por assim dizer, políticas de Barreiras, tenho tentado refletir a partir de dois pressupostos. O primeiro é que a profusão de problemas e o caos em que está mergulhada a cidade resultam de um período longo de administrações ruins; o segundo é que o discurso de criação do estado do Rio São Francisco caiu como uma luva para justificar esse caos. Vou começar pelo segundo ponto, pois terei de ser breve, dada a insistência com que trato da questão. O desmembramento da região Oeste tem como um de seus princípios de justificação a ideia de que não recebemos a atenção devida. Isso, desde logo, serve para encobrir e maquiar toda a incompetência das administrações locais. No fim das contas, o discurso de emancipação causa uma ilusão ótica, pois a visão não consegue perceber as coisas como elas são. Assim, diante de um buraco na rua, o olhar se volta para o governo estadual em busca do culpado. Minha tese, portanto, é a de que os verdadeiros problemas têm origem, antes de tudo, no abandono local, não estadual. Volto, com isso, ao primeiro ponto.

O ICADS está sem aulas desde o dia 12 de março. Logo completaremos dois meses de paralisação. A ação da prefeitura até o momento resumiu-se a fazer um conserto que de nada serviu. Isso porque o CREA emitiu um laudo apontando todos os problemas da ponte, e os reparos feitos, embora fizessem consertos nos problemas apontados pelo Conselho, não tiveram sua eficácia atestada pelos responsáveis da prefeitura. Em outras palavras, a prefeitura agiu da seguinte forma: reparamos os problemas, mas não garantimos a qualidade do trabalho, tampouco a segurança. Diante disso, uma comissão de professores e alunos fez uma peregrinação a Salvador, em 19 e 20 de abril, reunindo-se com o Reitor da UFBA, a secretária do Governador e deputados da Assembléia Legislativa. Ou seja, fizeram o trabalho que competia à prefeitura municipal. Depois dessas reuniões, um novo diálogo teve início, e o DERBA, órgão estadual, a partir de agora vai ajudar na resolução dos problemas, fazendo finalmente um conserto que garanta o que a prefeitura não garantiu. A reunião dos professores e alunos também conseguiu garantir um indicativo de que finalmente a ponte de concreto será construída com verbas estaduais. Estamos ou não estamos diante de um caso de má administração municipal? Se o município de Barreiras não tem recursos para pavimentar o acesso à UFBA, isso só demonstra os problemas locais e a incapacidade das pessoas que estão no comando, pois só isso justifica a falta de recursos para o investimento.

Como é costume local, houve a tentativa de transferir responsabilidades. Com efeito, duas objeções foram feitas para eximir a prefeitura de sua responsabilidade. Mas, por um efeito inverso ao desejado, ambas justamente realçam a incompetência administrativa. Falou-se, primeiramente, que a culpa era de quem havia mandado a UFBA para a Prainha, e, a seguir, que a própria universidade tinha seu quinhão de responsabilidade, pois além de aceitar instalar-se naquela localidade, acabou por levar centenas de estudantes para ter aulas onde não havia condições.

Se tivéssemos um debate político qualificado em Barreiras, essas objeções não precisariam ser levadas a sério. Mas o pior é que elas ainda surtem os efeitos desejados por aqueles que enunciam disparates retóricos e demagógicos como estes. Por isso, é preciso desfazer o nós desse novelo. Quando administradores dizem que não podem responsabilizar-se por problemas que herdaram da gestão anterior, isso significa a pá de cal, o atestado de óbito do município. Numa cidade que agoniza, como é o caso de Barreiras, é o que há de mais catastrófico. Partindo desse raciocínio, quando um morador da periferia, que vive em meio à lama, ao esgoto, aos ratos, ao lixo, à falta de luz, à falta de transporte decente, reclamar por qualquer melhoria, vai ouvir do administrador: não tenho nada a ver com isso, esses problemas existiam antes de eu assumir o poder. E, o que é pior, seguindo as mesmas justificativas que foram arroladas no caso da UFBA, esse possível morador ainda vai ouvir: a culpa é sua, pois quem mandou morar lá.

Analisemos esse último argumento no que ele diz respeito ao caso da UFBA. Atribuir responsabilidade à universidade por ela ter-se instalado na Prainha parte do pressuposto de que, para suas instalações, outro lugar poderia ter sido destinado. Hoje, após quase quatro anos em Barreiras, seria possível que, conhecendo a realidade política local, os professores que aqui estão não aceitassem a área depois do Rio de Ondas para lá construir os novos prédios. Todos já estariam informados o bastante para saber que não se pode confiar que uma ponte seria construída; tampouco que internet, energia, água encanada chegariam lá facilmente. Mas a universidade veio para cá antes de todos os professores que hoje estão aí. E as pessoas que estiveram à frente para instalar a UFBA aqui não sabiam de todos esses problemas e dificuldades. Caímos, portanto, num círculo vicioso, na medida em que só poderíamos ter evitado a Prainha se já conhecêssemos como é a política local, mas só conhecemos a política local, obviamente, depois que chegamos aqui. E a vinda da UFBA para cá já estava condicionada por aquilo que havia sido decidido politicamente.

Ainda assim, uma questão se impõe. Vamos supor que a UFBA tivesse condições de funcionar no Colégio Padre Vieira até o momento, e que só a partir de agora devesse ser escolhido ou negociado uma nova área para a necessária expansão do Campus. Os professores que já conhecem suficientemente a vida política barreirense, após analisar possíveis locais, deixariam de escolher a Prainha por antever todas as dificuldades? Evitar atravessar o rio porque a prefeitura se recusaria a construir uma ponte e oferecer acesso seguro seria a resolução mais correta? Se assim agisse, a Universidade não estaria sendo mesquinha e pequena ao aceitar as regras de tal jogo? Ora, o próprio movimento iniciado em 12 de março comprova precisamente o contrário. Caberia aqui, nessa relação entre Universidade e política local, uma sentença de Jean Piaget: “Quando o coelho come alface, é a alface que vira coelho, não o coelho que vira alface”.

Por Márcio Lima

quarta-feira, 28 de abril de 2010

"Barreiras está acordando!", por Sandro Ferreira

Hoje (28/04) pela manhã, Dia Nacional da Educação, os trabalhadores na educação municipal de nossa cidade (Professores, recreadores, merendeiras, etc.) realizaram uma paralisação em protesto contra a grave crise vivida pelo setor este ano. Várias escolas se encontram em condições precárias, algumas inclusive ameaçando cair (como a nossa ponte da Prainha), muitas sem merenda escolar, ou com um tipo de merenda que não respeita as orientações do Conselho Municipal da Merenda Escolar, e como se já não fossem problemas suficientes, vários dos trabalhadores de educação (professores contratados, pessoal de apoio e merendeiras) estão há mais de 2 meses sem receber salário. Em resumo, o descaso da "cidade mãe" com a educação é completo (vide também a postura adotada em relação as demandas da UFBA).

Destaco também que hoje os professores das Universidades Estaduais, incluindo o campus da UNEB em Barreiras, realizaram paralisação em protesto contra o governo Wagner que tem deixado as universidades estaduais a míngua, e participaram deste ato público.

As 8:30h cerca de 200 trabalhadores da educação estavam reunidos na praça São João Batista vestidos de preto em sinal de luto pela educação e com muita disposição para iniciar uma passeata até a Câmara Municipal e a Prefeitura. Estavam presentes lideranças dos servidores municipais (SINDSEMB) e da ADUNEB, mas, pasmem, a APLB, sindicato que organiza os professores do nível fundamental e médio, não estava presente, e mais, chegou a visitar algumas escolas avisando aos professores que quem não fosse dar aula hoje teria corte no ponto. A razão disso não foi difícil descobrir. A APLB é historicamente controlada pelo partido da presidente da Câmara Municipal que, por sua vez, é uma fiel aliada da prefeita da cidade, inclusive fazendo chapa (branca) para as eleições parlamentares deste ano com o marido da prefeita.

Em resumo, a luta por melhores condições de trabalho na educação está submetida aos conchavos da política eleitoral. As escolas do município e a UFBA ficam em segundo plano quando está em jogo a eleição da chapa oficial (com uma combinação partidária estranha, diga-se de passagem, se levarmos em consideração a noção de esquerda e direita no nosso Brasil pós redemocratização).

Ainda assim fiquei surpreso e feliz em ver a forte mobilização dos professores hoje que, somada a bela demonstração de combatividade de professores, estudantes e técnicos da UFBA, dão claros sinais de que a sociedade barreirense está despertando de uma longa hibernação.

Por Sandro Ferreira

quinta-feira, 22 de abril de 2010

"Ainda sobre responsabilidade, agora versus culpa....de quem?", por Joana Luz

É interessante observar como um movimento reivindicatório como a paralisação da comunidade da UFBA pode nos levar a uma série de reflexões. Muitas delas bastante pertinentes e outras totalmente equivocadas. Um exemplo desses equívocos é a colocação de algumas pessoas que dizem que a culpa pela situação que estamos enfrentando é da UFBA, que colocou o campus naquele “fim de mundo”. Fim de mundo esse que é, nada mais nada menos, um dos vetores de expansão da cidade. Outros dizem que deveríamos ter pensado nisso antes de transferir os alunos para um campus sem acesso, esquecendo-se que é nesse local onde estão investidos cerca de 20 milhões de reais, onde estão nossos laboratórios e onde temos condições de crescer.

Se formos seguir essa linha de raciocínio, tão limitada, diríamos que realmente a culpa é nossa em termos vindo para Barreiras ao invés de procurarmos um local que nos oferecesse melhores condições. Como não temos essa limitação e compreendemos que a expansão do ensino superior, ocorrida nos últimos anos, é algo de fundamental importância para o desenvolvimento educacional, tecnológico, científico, cultural e econômico do Brasil, só podemos chegar a uma conclusão, que foi uma decisão acertada virmos para a região oeste da Bahia.

Seguindo então essa segunda linha de raciocínio (da decisão acertada) e voltando à questão do meu primeiro post, "Universidade e Responsabilidade Social versus Responsabilidade Social e Universidade", que aliás parece não ter sido entendido por algumas pessoas, vou tentar ser mais didática, para ver se consigo me fazer entender. Quando chegamos a Barreiras há cerca de 3 anos e meio, apenas 32 professores, 240 alunos, nenhum funcionário e nenhuma infra-estrutura, tanto interna (UFBA) quanto externa (poder público). Com esse quadro se tivéssemos seguido a primeira linha de raciocínio (a do recuo) teríamos arrumado nossas malas e retornado às nossas cidades de origem e dito que não tínhamos como iniciar nada naquelas condições.

Esses 32 professores “meteram a mão na massa”, trabalhando em condições bastante precárias, sem nunca pensar em desistir. Passados esses 3 anos e meio, creio que cumprimos nossa lição de casa: não que tenhamos as condições ideais, ainda temos muito que fazer, mas podemos dizer que hoje a Universidade Federal da Bahia na região oeste efetivamente existe. Dobramos o número de cursos, incluindo cursos noturnos, quadruplicamos o número de professores, temos mais de mil estudantes, temos servidores técnico-administrativos, que apesar do número ainda pequeno para nossas necessidades, têm trabalhado com bastante eficiência. E continuaremos trabalhando para fazer mais, apesar das dificuldades que se apresentam.

Pois bem, ao iniciarmos nossas atividades contatamos imediatamente governo do estado e prefeitura, solicitando apoio no sentido de criar condições de infraestrutura, uma vez que estávamos iniciando as obras no novo campus (leia-se: Prainha). Tínhamos consciência de que haveria um aumento de demanda de tráfego e que o acesso era algo a ser pensado e planejado. Mudamos para o campus da Prainha dois anos depois e nada de acesso, agora 3 anos e meio depois ainda continuamos sem acesso e a demanda só aumenta pois continuamos a fazer nossa lição de casa.

Diante dessas questões, vale uma reflexão acerca do significado da expansão do ensino superior. Será que as Universidades têm que ficar restritas aos grandes centros, ao litoral, aos municípios que oferecem infraestrutura adequada? Será que devemos condenar as regiões mais distantes a se isolarem cada vez mais, não permitindo que sua população possa ter acesso à educação em todos os níveis? Pensando nisso é que estamos parados há cerca de 40 dias, tentando mostrar para a população que só ela é responsável pela defesa daquilo que é do seu interesse.

Por Joana Luz

segunda-feira, 19 de abril de 2010

“Ainda universidade e política”, por Márcio Lima

Nos dias treze e quatorze de abril, um grupo de professores e alunos da UFBA compareceu à sessão na Câmara de Vereadores de Barreiras. A ação integrou as atividades de manifestação do movimento de paralisação da universidade, que reivindica condições seguras de trânsito até o prédio da Prainha. Embora caiba ao poder executivo municipal resolver o problema, o ato foi uma forma de ampliar a busca por uma solução. Além do mais, foi muito ilustrativo estar presente àquela casa. No primeiro dia, como parece ser hábito, a sessão iniciou com a leitura da Bíblia. Mas, por falta de expediente, não teve sobre o que deliberar. Ora, numa cidade como Barreiras, a câmara municipal fica um dia sem deliberação por falta de matéria. Inacreditável. Sem trabalho, os vereadores abriram espaço para que o aluno Israel e o professor Roberto Portela se manifestassem, expondo a situação em que se encontra a famigerada ponte da Prainha. Ao fim, houve um indicativo de que seriam convocados para a sessão do dia seguinte Carlão, o funcionário da prefeitura que tem respondido pelas obras o Secretário de Infraestrutura José Antônio Alves e o representante do CREA, que, era esperado, naquele mesmo dia emitiria um laudo ratificando o que todos já sabiam, isto é, a falta de condições de trafegabilidade da ponte.

Já na quarta, após a leitura da Bíblia e dos itens que comporiam o expediente do dia, foi informado que Carlão o Secretário de Infraestrutura sequer tinha sido convocado, pois o laudo do CREA não teria condições de chegar à sua mão em tempo hábil. Mais uma vez, foi concedida a palavra para o professor Roberto Portela, que leu, finalmente, o laudo. Àquela altura, na qual o conteúdo do documento já era de conhecimento prévio, o que o episódio revelava era a atuação do poder público diante do problema, numa clara demonstração de incompetência, descaso, falta de preparo para enfrentar uma crise como essa. Ora, se o professor teve acesso ao lado em tempo hábil até o início da sessão, por que Carlão o Secretário de Infraestrutura não tivera? Em vez de se esquivar de convocá-lo de antemão, a câmara não teria que pressioná-lo a estar ali? Mas logo a seguir ficou claro por que os vereadores tomaram essa decisão. Eles parecem estar ali não para representar os interesses da sociedade, mas para servir ao poder executivo.

Diante de professores e alunos que estão encabeçando um movimento de proporções talvez desconhecidas de Barreiras, o que fazem alguns vereadores da cidade? Começam a entoar um canto de louvor à prefeita. Pensaram eles que as pessoas envolvidas no movimento de paralisação que já dura mais de trinta dias seriam convencidas por um discurso laudatório como aquele? Obviamente que o despreparo para ocupar uma função como a que ocupam os deixou perdidos. Mas, além disso, os vereadores parecem não ter se dado conta da grandiosidade do problema e, por consequência, do movimento que ele ensejou. O posicionamento da câmara de vereadores talvez demonstre a relação entre sociedade e poderes públicos. Estes, omissos já há muito tempo e desacostumados a serem pressionados, não são capazes minimamente de encarar frente a frente os problemas que uma situação como essa desencadeia. Ainda que a câmara quisesse escudar o poder executivo, que o fizesse de outro modo, não como fez, como se um simples discurso vazio fosse minimamente aceitável para contornar a situação.

Porque não tinha sido ainda posta à prova, parece que a câmara de vereadores não se dera conta da gravidade do problema e, pari passu, da seriedade do movimento de paralisação. Ora, no início das manifestações, quando houve a passeata até a prefeitura e que culminou na ação truculenta (para dizer o mínimo) da polícia, aqui e ali se ouvia dizer: já pensou se todos os que estão com problemas vêm fazer manifestação na porta da prefeitura? Isso demonstra bem o tipo de relação que se estabeleceu entre o poder público e a sociedade, como se fosse esperado que cada qual cumprisse bem seu papel, cabendo ao primeiro omitir-se e à segunda calar-se (ao menos publicamente, pois reclamar, todos reclamam). Se o ato mesmo de reivindicação da UFBA – como temem alguns – fará com que isso mude doravante, ninguém sabe; mas, para fazer coro com a câmara de vereadores em pelo menos um ponto, vale lembrar um preceito bíblico: olho por olho, dente por dente

Por Márcio Lima

sexta-feira, 9 de abril de 2010

“A Propósito da Mobilidade Urbana em Barreiras”, por Paulo Baqueiro (Professor da UFBA)

Neste momento, em que professores, estudantes e funcionários da UFBA estão impedidos de exercer suas atividades pela falta de condições adequadas de tráfego no caminho que dá acesso ao “Além Rio de Ondas”, a discussão que proponho agora parece oportuna, ainda que não trate diretamente do imbróglio da Prainha.

A Praça da Mobilidade, a ser construída em Barreiras, é vista como um marco da acessibilidade na “capital do Oeste”. Proposto pela prefeita Jusmari Oliveira ainda em campanha, o dito espaço público, localizado em Barreirinhas, na margem direita da BR-242 (sentido Luís Eduardo Magalhães), terá, segundo a municipalidade, toda a infraestrutura necessária para o acesso e usufruto de portadores de necessidades especiais, além de crianças e idosos, a parcela populacional usuária por excelência desse tipo de equipamento urbano.

Com a decisão de edificar a praça, parece evidente, ao menos à primeira vista, que a gestão pública municipal dá um passo decisivo no sentido de promover a inclusão daqueles que, por um motivo ou por outro, não podem conviver plenamente com os seus concidadãos. Mas uma simples caminhada pelas ruas da cidade revela que, mais do que a chegada de uma nova era de prevalência do respeito sobre a intolerância, essa praça, se construída, representará, na verdade, uma ironia dirigida aos barreirenses.

Tratar da mobilidade urbana é oferecer a todo cidadão as condições plenas de acesso a qualquer fragmento da cidade e não apenas a um determinado espaço, fartamente dotado da infraestrutura que deveria estar disponível em todas as esquinas, vias, calçadas e praças de Barreiras.

Não há como negar que, para qualquer barreirense, independente da condição física que possua, o deslocamento pela cidade é um exercício de paciência e uma atividade audaciosa. Calçadas e vias em péssimo estado de conservação garantem a aventura para quem precisa sair de casa para estudar, trabalhar ou passear.

As calçadas são irregulares na altura, na largura ou no tipo de piso utilizado, muitas delas construídas como verdadeiros monumentos à megalomania, ou seja, excessivamente altas. Além disso, a enorme quantidade de buracos e a inexistência de rampa de acesso na maioria dos cruzamentos completam o quadro de negligência da municipalidade em relação às calçadas.

As ruas e avenidas da cidade não apresentam condições mínimas de trafegabilidade. A cada temporada de chuvas, o asfalto, de péssima qualidade, se desmancha como se fora feito daquela famosa pastilha de antiácido efervescente. As demais vias, ainda sem cobertura asfáltica, têm sulcos provocados pelo escoamento das águas pluviais que mais parecem trincheiras da Primeira Guerra Mundial.

Outro tema que diz respeito à mobilidade urbana, mas que não recebe qualquer atenção da municipalidade é o da instalação de ciclovias e ciclofaixas, uma solução inteligente para o transporte público das cidades grandes e médias.

Pesquisa do Ministério dos Transportes dá conta de que 29% dos brasileiros utilizam a bicicleta como meio de locomoção, mas que a quantidade de quilômetros de ciclovias e ciclofaixas instalados nas cidades está aquém das necessidades desses cidadãos ciclistas.

Barreiras, cidade média, com transporte público deficiente e excelentes condições de uso para a bicicleta, não contempla projetos para instalação de vias exclusivas para ciclistas, ainda que já existam indícios de saturação da atual malha viária da cidade. Aliás, aproveito o ensejo para reivindicar que, quando a municipalidade resolver instalar um acesso digno ao Campus da Prainha, que o faça com uma ciclovia.

Razões não faltam, enfim, para que se chegue à conclusão do quão irônica é a construção de uma Praça da Mobilidade em uma cidade onde tal princípio é negado.

Por Paulo Baqueiro

segunda-feira, 29 de março de 2010

"Universidade e Política", por Márcio Lima

Desculpem-me a insistência na questão, mas tenho escrito que o discurso e projeto da criação do estado do Rio São Francisco acaba por encobrir os problemas reais de Barreiras e, provavelmente, de todo Oeste da Bahia. Certamente os grandes problemas da cidade existem por um histórico de administrações ruins, embora se crie o discurso de que o estado baiano é o responsável por eles, na medida em que não investe aqui. Daí a necessidade de criação do novo estado.

A recente manifestação da UFBA desencadeou uma série de reações que evidencia com muita força esse fato. O site ZDA (que, aliás, está fora do ar há vários dias no momento em que escrevo) destacou-se como organizador do debate, uma vez que nele muitas visões sobre o ocorrido foram expostas.

O ex-prefeito Saulo Pedrosa escreveu um texto condenando a atual gestão, fazendo duras críticas ao descaso com que vem sendo tratada a UFBA, bem como ao posicionamento da prefeita durante o acontecimento. A presidenta da câmara de vereadores, Kelly Magalhães, saiu em defesa da atual administração. Em post do dia 17 de março em seu blog, pôs em xeque, em primeiro lugar, os méritos do antigo prefeito na vinda da Universidade Federal para Barreiras. Tal fato deve-se a um projeto do governo federal, do MEC e do governo da Bahia. Saulo Pedrosa, portanto, beneficiou-se de ações dos governos do PT, partido ao qual o seu (PSDB), é bom lembrar, faz oposição. A vereadora lembra também como fora tratada a educação superior pública quando FHC esteve na presidência. Mas a réplica não se restringe a esse argumento, pois as “obras” que o ex-prefeito listou em sua conta, Kelly tratou de lembrar que elas eram, na verdade, programas das esferas mais altas, ou seja, dos governos estadual e federal. Além do mais, Saulo ainda se dera ao luxo de perder 69 milhões destinados ao saneamento básico, verba que ele poderia ter recebido do governo federal, mas da qual Barreiras não se beneficiou devido à questão com a Embasa.

Saindo das diatribes contra Saulo para os encômios à atual prefeita Jusmari, Kelly Magalhães, porém, muda radicalmente o critério de sua análise, pois aquilo que assume um caráter de discurso desmistificador quando avalia a gestão de Saulo é motivo agora de elogios. Assim, Kelly louva as realizações da cidade mãe, quando na verdade são o vovô e o bisavô os responsáveis pelos melhoramentos que ela lista – num post anterior, do dia 07 de janeiro de 2010. Lamentando que o povo tenha memória curta, ela diz que as principais ruas da cidade antes estavam intransitáveis. Além de melhorá-las, a atual gestão deixou a cidade florida, a saúde está a olhos vistos (sic) e há um trabalho para atrair indústrias e fábricas. De tudo isso, só mesmo as flores podem ser vistas, e há mesmo um trabalho exaustivo para molhá-las com caminhão-pipa, e para substituí-las, pois mesmo regando-as, elas não resistem por muito tempo. Quanto às ruas, não sei por onde a vereadora transita, mas não vejo diferença entre o que era e como está. Saindo, então, da avaliação do governo municipal para o estadual, Kelly diz que Wagner muito tem feito pelo Oeste. Todos podem conferir as benesses listadas em seu blog. A meu ver, o mesmo argumento que ela utilizou contra Saulo vale para a atual gestão, ou seja, aquilo que compete ao município vai mal, e o que supostamente tem sido feito vem de cima. O que joga por terra o discurso de que Barreiras e o Oeste são abandonados, pois o problema maior é mesmo com as administrações locais. Afinal de contas, não é isso que a vereadora sustenta quando analisa a gestão Saulo e que se esquece de dizer quando tergiversa sobre a atual?

Ora, basta lembrar que Barreiras tem hoje uma universidade estadual (UNEB), uma federal (UFBA) e um instituto federal (IFBA). Ademais, é possível citar outros órgãos, como EBDA, CODEVASF etc. As cidades que supostamente não são abandonadas pela Bahia certamente gostariam de receber tratamento igual.

Em termos de educação, afora Salvador, apenas Vitória da Conquista está servida com esse mesmo aporte de instituições de ensino público. Vale citar que aquele município é governado pelo PT desde 1997 (já é o quarto governo seguido), portanto, parece natural que no projeto de interiorização da UFBA, seu nome tenha sido o primeiro a ser lembrado. Mas, se pensarmos bem, essa conta talvez não deva ser invocada, pois o tratamento que a UFBA (tanto em termos físico como humano) vem recebendo denota que o município não faz questão de Universidades. Se é educação que os governos estadual e federal querem dar ao Oeste, esqueçam. O que se deseja é um estado novo, com uma profusão de cargos novos a serem preenchidos. Senão vejamos.

O site da UFBA em Vitória da Conquista noticiou a pavimentação do acesso ao campus de lá. Uma parceria do município com o estado para realizar as obras, que custarão em torno de 700 mil reais. Embora seja um valor menor que o necessário para pavimentar o acesso à Prainha, a obra em Vitória da Conquista revela que lá a prefeitura foi buscar junto ao governo estadual recursos. Aqui, ouve-se o tempo todo que não há dinheiro, mas que Wagner prometeu realizar também a obra. Será que nosso executivo foi buscar esse investimento ou está à espera do dinheiro? Quando se olha a foto da rua que será pavimentada em Vitória da Conquista, mesmo sendo de terra, nota-se que ela é muito mais transitável do que as principais ruas de Barreiras. Já nem é possível comparar com a rua lateral que conduz à entrada principal do Padre Vieira, que é uma das ruas mais podres do centro. Invocar o trajeto para chegar à Prainha seria insanidade.

Mas em meio a todas as questões que a manifestação da UFBA provocou, bem como às mazelas que fez vir à tona, a prefeita Jusmari bradou que o problema foi terem construído a Universidade do outro lado do rio. Além disso, disse que ela era a prefeita mais democrática que esta cidade já teve, pois embora seja evangélica, realizou o maior carnaval de Barreiras. E não achando pouca a confusão entre religião e política, disparou que sua meta é converter 90% por cento da população à sua religião. Parece até fala daqueles personagens políticos de Chico Anísio ou da antiga série O Bem Amado.

Seria cômico, se não fosse trágico.

Por Márcio Lima

quarta-feira, 17 de março de 2010

"Universidade e Responsabilidade Social versus Responsabilidade Social e Universidade", por Joana Luz

A Universidade Federal da Bahia chegou à região oeste do estado há cerca de 3 anos e meio, começando timidamente com pouco mais de 30 professores e cerca de 200 estudantes. Este tempo é pouco para a consolidação de uma universidade, mas muito para que esta já pudesse ter recebido a devida atenção dos poderes públicos tanto da região quanto do estado da Bahia. Não sou daqueles que acham que deveríamos esperar que tivéssemos todas as condições estabelecidas para apenas então iniciarmos nossas atividades; entretanto, creio que o construir de uma instituição como uma universidade deva ser um esforço conjunto, tanto daqueles que compõem o quadro de servidores dessa instituição quanto daqueles que se colocam na condição de representantes dos interesses de toda uma sociedade.

Muitos investimentos já foram aplicados na criação do campus da UFBA desde a sua criação em 2006 – cerca de R$ 20 milhões em recursos advindos do programa de expansão do Governo Federal – e atualmente o campus possui numa área 60 hectares com 1 prédio que abriga 32 laboratórios de ensino e pesquisa, 1 pavilhão de aulas concluído e outro em fase de construção, 1 prédio de biblioteca já licitado com previsão imediata de inicio das obras, além do prédio localizado no centro, onde iniciamos nossas Atividades e onde hoje funcionam alguns cursos, incluindo-se cursos noturnos. Contamos hoje com 123 vagas docentes em regime de dedicação exclusiva e 35 de servidores técnicos administrativos. Com o vestibular 2010 temos hoje um quantitativo de cerca de 1200 alunos, distribuídos nos 12 cursos oferecidos pelo campus.

A Universidade tem cumprido seu papel oferecendo vagas para toda a população da região oeste da Bahia, nos seus cursos de graduação e de especialização recentemente abertos e nos diversos cursos de extensão já realizados e em realização. Além disso, temos diversos projetos de pesquisa em andamento, e muitos outros por vir. Em outras palavras, o papel social da universidade está colocado, não apenas para a formação profissional de qualidade, mas de forma não menos importante na participação efetiva nos destinos dessa região e desse país, através da formação crítica e do questionamento das estruturas políticas, econômicas e sociais.

Apesar de tudo o que foi colocado anteriormente, a respeito da importância que uma universidade exerce como pólo de produção de conhecimento, não temos visto um engajamento das forças políticas desta região, e mesmo deste estado, na consolidação e construção desta universidade. Coloco isso baseada em alguns aspectos que considero bastante relevantes. O primeiro diz respeito à criação da Universidade Federal do Oeste da Bahia. Apesar da implantação da Universidade Federal do Recôncavo Baiano em 2005, a Bahia apresenta ainda um número bastante reduzido de Universidades Federais em relação à sua população, com 1.630 habitantes por vaga, enquanto que a média nacional era de 1080 habitantes por vaga oferecida no ano de 2009; o estado ocupa atualmente o 26o lugar na distribuição de vagas e o 25o lugar entre os 27 estados brasileiros na distribuição de recursos para as Universidades Federais, que é de R$ 51,28/habitante (ante uma média nacional de R$ 139,07/habitante). Mesmo considerando-se o déficit educacional do estado, não vemos um movimento significativo em defesa da criação da Universidade Federal do Oeste da Bahia: temos visto apenas manifestações individualizadas de algumas lideranças do estado.

O segundo ponto diz respeito a aspectos de infraestrutura do nosso campus. Apesar de todos os investimentos já realizados e do patrimônio acumulado, vemos com muito pesar a possibilidade de termos que parar nossas atividades em função da falta de condição de tráfego para o campus da Prainha, local onde está a maioria dos nossos alunos e professores. Neste período de chuvas já tivemos alguns incidentes, com carros atolando, sem contar a aventura que é atravessar a ponte, colocando em risco a integridade física de todos que passam diariamente pelo local. É lamentável que depois de três anos de instalado o campus da UFBA ainda tenha que brigar por condições de acesso e iluminação pública.

Acredito que, assim como a universidade tem responsabilidades sociais inerentes às suas atividades, a sociedade, representada pelas suas lideranças políticas, deve ter um compromisso para com esta instituição. Instituição que, no caso específico do Campus da UFBA em Barreiras, se constitui num dos maiores ganhos sociais para a região oeste da Bahia, uma universidade pública, gratuita e de qualidade.

Por Joana Luz