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quarta-feira, 11 de maio de 2011

"Como orientar-se sem pensamento?", por Márcio Lima

Todos devem ter acompanhado a recente visita da nossa presidenta (como ela prefere ser chamada) à China. Nas negociações que levaram Dilma ao Oriente, o ponto principal dizia respeito ao tipo de acordo que os dois países têm mantido, com uma clara vantagem para os chineses. A questão é que, de forma geral, o Brasil exporta commodities e importa produtos manufaturados. Vendemos minérios para o exterior e exportamos produtos tecnológicos de cujos componentes os minérios fazem parte. Para ficar na sensação do momento no Oeste, o tal do tálio, a tendência é de extrairmos o produto, exportar e depois comprar equipamentos de que ele faz parte. Aquilo que o Brasil sabe fazer bem quando, por exemplo, exporta minério de ferro e importa aço. Dilma quer, portanto, modificar nossa forma de negociar, tentando “agregar valor” (sei que a expressão ajuda a desagregar a inculta e bela língua portuguesa) aos nossos produtos. Daí ter sido comemorado como um grande negócio a notícia de que a empresa Foxconn vai fabricar o iPad no Brasil.

O que chama a atenção nisso tudo é um problema de fundo, sem cuja solução o Brasil vai estar sempre impedido de ir mais além. Indo logo ao ponto, refiro-me à educação. Noticiou-se que a Foxconn pode gerar, em cinco anos, cem mil empregos, dos quais vinte mil seriam para engenheiros. Uma só empresa é capaz de produzir tantos postos de trabalho. Imaginem um cenário ideal em que várias empresas venham “agregar valor” ao produto interno bruto nacional para que eles sejam vendidos de forma manufaturada; imaginemos mais: em vez de depender apenas de empresas internacionais, o Brasil comece a ter suas próprias empresas, como a Petrobrás. Quantos postos de trabalho seriam criados nesse boom desenvolvimentista? Agora a pergunta: temos mão de obra qualificada para atender a essa demanda? Temos massa crítica para transformar a natureza em si em fenômenos industrializados? Como a resposta é conhecida, vamos aos problemas.

Embora muitos afirmem que começou com Galileu a aventura moderna, baseada na ideia de que a natureza é escrita em linguagem matemática, portanto, sem dominar essa linguagem não podemos dominar o mundo, disso os antigos já sabiam, pois é pitagórico o princípio de que a natureza é escrita em linguagem matemática. Em suma, desvendar os segredos da natureza não é possível sem matemática. É claro que a modernidade, na qual em grande medida ainda estamos mergulhados em termos científicos, levou essa equação ao infinito. Graças à matemática, mesmo a física se modifica completamente no mundo moderno, quando comparada à dos antigos. Eis que matemática e física, justamente os conhecimentos mais elementares para a produção do conhecimento tecnológico, é o que mais falta aos brasileiros. Em termos de déficit, na privilegiada educação nacional, elas – matemática e física – ocupam um lugar mais privilegiado ainda.

Tudo isso é óbvio demais. Mas aquilo que todos estão cansados de saber, e por isso parece que ninguém se importa mais, dói na pele quando nos atinge e faz sangrar. Nesse aspecto, nossa situação particular do Oeste baiano realça com muita força essa verdade universal brasileira. A cada ano, o número de ingressantes nos cursos de graduação do ICADS vem diminuindo. Chegamos ao cume de não termos nenhum aluno matriculado no curso de matemática em 2011. Nos demais cursos, geologia, física, química, por exemplo, a situação não é melhor. É um fenômeno que ainda estar para ser explicado, mas lembro que em 2006, quando houve o primeiro vestibular, os números eram mais animadores, embora não houvesse ainda os cursos de matemática e física.

A situação então é a seguinte: estamos numa região cuja produção é exclusivamente de commodities, e temos, por outro lado, uma universidade federal com professores e laboratórios, que devem preparar da melhor forma as pessoas pensantes e qualificadas para tomar sob os seus ombros a responsabilidade pela transformação intelectual, social e econômica (fiquei tentado a escrever política, mas a questão é ainda mais complicada) que se acena no horizonte. Contudo, não é isso o que está acontecendo, pelo menos não como seria desejável. Estamos longe disso. Mais uma vez, o Oeste reflete exponencialmente os problemas do Brasil. Volto ainda a essas questões.

Por Marcio Lima

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

"A Índia Surda que Dançava", por Poty Lucena

O desfile das tribos de índios durante o carnaval, regido ao som agudo da gaita (uma espécie de flauta de metal), ritmado pela batida de tambores, triângulo, tudo isso compassado pelo estalo de um arco e flecha de madeira, faz parte de uma tradição de quase de 100 anos em João Pessoa/PB e é responsável até hoje pela afirmação da influência da cultura indígena na formação da identidade do povo nordestino, especialmente o da Paraíba.

E foi num desfile carnavalesco das tribos indígenas na década de 70 que um militar, um homem branco, gordo e alto, tenente músico do exército, notou algo interessante e surpreendente com uma componente da agremiação que era surda, muda e dançava o passo marcado acompanhando toda a tribo com sincronia de invejar campeã de nado sincronizado. Após a apresentação o tenente curioso e teimoso, em uma linguagem de sinais rudimentar, quis saber como a índia conseguia “escutar” a música. Com o dedo indicador, e um sorriso de surpresa, a índia apontou para a barriga e explicou para o tenente de onde vinha a sensação do som. Ali começava a saga de um dos maiores folcloristas do Brasil, que montou uma banda de surdos e mudos (isso mesmo!) com metodologia própria a partir de um trabalho voluntário de educação para deficientes, na época uma grande novidade que ganhou as manchetes dos jornais e revistas nacionais.

Resgato este exemplo para falar do tamanho do desafio que hoje nós da Universidade Federal da Bahia, enfrentamos para prover de educação pública de excelência aos muitos que nunca tiveram direito a uma educação pública de qualidade. É caso comum a origem humilde dos nossos estudantes que chegam trazendo na bagagem, além da saudade e o orgulho dos pais, a história de descaso com a educação pública fundamental e média e o desabafo da injustiça disfarçada de revolta. Revolta que em poucos instantes se transforma em um sorriso de vitória ao se darem conta que venceram e que conseguiram chegar à Universidade. A medida do sucesso do professor é do tamanho do sucesso do estudante. E a transformação dos estudantes alijados de boa parte de sua formação básica em profissionais disputados e lideranças é a sensação mais gratificante da vida de um professor.

Após 04 anos de Oeste da Bahia e da construção do Instituto de Ciências Ambientais e Desenvolvimento Sustentável da UFBA em Barreiras consigo entender que a teimosia e a curiosidade do Tenente Lucena, meu avô, é a fórmula que alimenta a nossa sensação de vitória que, por sua vez, é do tamanho do desafio que todos nós enfrentamos nestes 04 anos. Nesta curta história, fizemos história e travamos batalhas, literalmente, para desfazer a injustiça e o descaso público que persiste, para garantir o respeito ao bem mais precioso do ser humano, o conhecimento.

*Para conhecer e assistir um pouco das tribos indígenas do carnaval tradição da Paraíba acessem este link.

Por Poty R. de Lucena

quarta-feira, 28 de abril de 2010

"Barreiras está acordando!", por Sandro Ferreira

Hoje (28/04) pela manhã, Dia Nacional da Educação, os trabalhadores na educação municipal de nossa cidade (Professores, recreadores, merendeiras, etc.) realizaram uma paralisação em protesto contra a grave crise vivida pelo setor este ano. Várias escolas se encontram em condições precárias, algumas inclusive ameaçando cair (como a nossa ponte da Prainha), muitas sem merenda escolar, ou com um tipo de merenda que não respeita as orientações do Conselho Municipal da Merenda Escolar, e como se já não fossem problemas suficientes, vários dos trabalhadores de educação (professores contratados, pessoal de apoio e merendeiras) estão há mais de 2 meses sem receber salário. Em resumo, o descaso da "cidade mãe" com a educação é completo (vide também a postura adotada em relação as demandas da UFBA).

Destaco também que hoje os professores das Universidades Estaduais, incluindo o campus da UNEB em Barreiras, realizaram paralisação em protesto contra o governo Wagner que tem deixado as universidades estaduais a míngua, e participaram deste ato público.

As 8:30h cerca de 200 trabalhadores da educação estavam reunidos na praça São João Batista vestidos de preto em sinal de luto pela educação e com muita disposição para iniciar uma passeata até a Câmara Municipal e a Prefeitura. Estavam presentes lideranças dos servidores municipais (SINDSEMB) e da ADUNEB, mas, pasmem, a APLB, sindicato que organiza os professores do nível fundamental e médio, não estava presente, e mais, chegou a visitar algumas escolas avisando aos professores que quem não fosse dar aula hoje teria corte no ponto. A razão disso não foi difícil descobrir. A APLB é historicamente controlada pelo partido da presidente da Câmara Municipal que, por sua vez, é uma fiel aliada da prefeita da cidade, inclusive fazendo chapa (branca) para as eleições parlamentares deste ano com o marido da prefeita.

Em resumo, a luta por melhores condições de trabalho na educação está submetida aos conchavos da política eleitoral. As escolas do município e a UFBA ficam em segundo plano quando está em jogo a eleição da chapa oficial (com uma combinação partidária estranha, diga-se de passagem, se levarmos em consideração a noção de esquerda e direita no nosso Brasil pós redemocratização).

Ainda assim fiquei surpreso e feliz em ver a forte mobilização dos professores hoje que, somada a bela demonstração de combatividade de professores, estudantes e técnicos da UFBA, dão claros sinais de que a sociedade barreirense está despertando de uma longa hibernação.

Por Sandro Ferreira